quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Dias de fúria
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 29/10
Com ou sem black blocs, reações enfurecidas a 'coisas do governo' tornam-se comuns em SP e no Rio
DESDE A TARDE de domingo e até a noite de ontem, ônibus e caminhões são incendiados e o comércio é depredado, entre outras manifestações de violência e protestos num bairro em geral conservador e de pequena classe média da zona norte da cidade de São Paulo, a Vila Medeiros, próxima da Vila Maria um dia janista, caricatura do conservadorismo paulistano.
O tumulto aparentemente se deve ou inicialmente se deveu à morte estúpida de um rapaz, morto por um policial militar, talvez por acidente.
A descrição vai na voz passiva mesmo porque não se sabe bem quem comete os incêndios e depredações, muito parecidas com os tumultos que ocorrem desde junho, em especial com os tumultos que ocorrem desde setembro em cidades grandes.
Antes de junho, a gente poderia comparar a irrupção de fúria a outros tumultos indignados contra violências da polícia, em geral mais comuns em bairros bem mais pobres, em geral mais comuns no Rio do que em São Paulo. Só que agora não.
Um dos clichês que ficaram das manifestações de junho é que "a pauta dos protestos era difusa".
Desde o arrefecimento das passeatas maciças, os protestos foram se tornando cada vez mais difusos, com pautas concentradas. Cada grupo de interesse, bairro, corporação ou qual fosse o fator agregador passou a sair às ruas. Em números menores, chamavam menos a atenção. Houve a impressão de arrefecimento, diluição, fim agônico de uma moda. Só que não.
A atuação do grupo dos mascarados, ditos black blocs, aumentou a temperatura midiática e tumultuária de protestos de grupos quaisquer. Não se pode dizer se por imitação ou pelo fato de compartilharem da mesma fúria contra a ordem, há grupos de pessoas sem relação visível com black blocs que demonstram sua indignação sem mais: botando para quebrar.
Parêntese: não temos uma palavra boa para o que se chama aqui de tumulto, entre outros motivos por não termos lá muita tradição de protestos de rua. Em inglês, temos "riot". Em francês "émeute". Ambos tratam de reações espontâneas e violentas a um abalo emocional coletivo.
Não se trata de dizer que há uma epidemia furiosa, adesão geral ou simpatia aos tumultos, ou que nome se dê à coisa. No entanto, com violências e tudo mais, ainda não há repúdio amplo ao que passa nas ruas.
Segundo pesquisa Datafolha publicada no domingo, desde junho está diminuindo o apoio aos "protestos" na cidade de São Paulo, mas o júri ainda não é decisivo. Pode ser que os transtornos à vida cotidiana, a insatisfação com violências e prejuízos expliquem a crescente desaprovação. Mas dois terços dos paulistanos ainda são "a favor" dos protestos. De quais protestos, não se sabe bem.
Pode ser que tenha sobrado a memória dos dias simpáticos e em geral alegres das passeatas de junho, daí a resistente aprovação dos "protestos".
Talvez. Pode ser que a paciência com uma ordem imóvel e estúpida tenha se esgotado. Algo se quebrou. Sem respostas visíveis de um Estado incompreensível e distante, "botar para quebrar" tenha se tornado atitude (mais ou menos) aceitável.
Não, não se trata de economia, perda de renda, desemprego. Nada disso é capaz de explicar essa, digamos, variação de humores. Que pode temperar a eleição de 2014.
Com ou sem black blocs, reações enfurecidas a 'coisas do governo' tornam-se comuns em SP e no Rio
DESDE A TARDE de domingo e até a noite de ontem, ônibus e caminhões são incendiados e o comércio é depredado, entre outras manifestações de violência e protestos num bairro em geral conservador e de pequena classe média da zona norte da cidade de São Paulo, a Vila Medeiros, próxima da Vila Maria um dia janista, caricatura do conservadorismo paulistano.
O tumulto aparentemente se deve ou inicialmente se deveu à morte estúpida de um rapaz, morto por um policial militar, talvez por acidente.
A descrição vai na voz passiva mesmo porque não se sabe bem quem comete os incêndios e depredações, muito parecidas com os tumultos que ocorrem desde junho, em especial com os tumultos que ocorrem desde setembro em cidades grandes.
Antes de junho, a gente poderia comparar a irrupção de fúria a outros tumultos indignados contra violências da polícia, em geral mais comuns em bairros bem mais pobres, em geral mais comuns no Rio do que em São Paulo. Só que agora não.
Um dos clichês que ficaram das manifestações de junho é que "a pauta dos protestos era difusa".
Desde o arrefecimento das passeatas maciças, os protestos foram se tornando cada vez mais difusos, com pautas concentradas. Cada grupo de interesse, bairro, corporação ou qual fosse o fator agregador passou a sair às ruas. Em números menores, chamavam menos a atenção. Houve a impressão de arrefecimento, diluição, fim agônico de uma moda. Só que não.
A atuação do grupo dos mascarados, ditos black blocs, aumentou a temperatura midiática e tumultuária de protestos de grupos quaisquer. Não se pode dizer se por imitação ou pelo fato de compartilharem da mesma fúria contra a ordem, há grupos de pessoas sem relação visível com black blocs que demonstram sua indignação sem mais: botando para quebrar.
Parêntese: não temos uma palavra boa para o que se chama aqui de tumulto, entre outros motivos por não termos lá muita tradição de protestos de rua. Em inglês, temos "riot". Em francês "émeute". Ambos tratam de reações espontâneas e violentas a um abalo emocional coletivo.
Não se trata de dizer que há uma epidemia furiosa, adesão geral ou simpatia aos tumultos, ou que nome se dê à coisa. No entanto, com violências e tudo mais, ainda não há repúdio amplo ao que passa nas ruas.
Segundo pesquisa Datafolha publicada no domingo, desde junho está diminuindo o apoio aos "protestos" na cidade de São Paulo, mas o júri ainda não é decisivo. Pode ser que os transtornos à vida cotidiana, a insatisfação com violências e prejuízos expliquem a crescente desaprovação. Mas dois terços dos paulistanos ainda são "a favor" dos protestos. De quais protestos, não se sabe bem.
Pode ser que tenha sobrado a memória dos dias simpáticos e em geral alegres das passeatas de junho, daí a resistente aprovação dos "protestos".
Talvez. Pode ser que a paciência com uma ordem imóvel e estúpida tenha se esgotado. Algo se quebrou. Sem respostas visíveis de um Estado incompreensível e distante, "botar para quebrar" tenha se tornado atitude (mais ou menos) aceitável.
Não, não se trata de economia, perda de renda, desemprego. Nada disso é capaz de explicar essa, digamos, variação de humores. Que pode temperar a eleição de 2014.
Enem ! pato erra non chutes!José Simão
FOLHA DE SP - 29/10
Enem quer dizer Eu Não Escrevi Miojo! Um amigo me ligou todo contente: "Passei! Eu Não Escrevi Miojo!"
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E adorei o Roberto Carlos no "Cansástico": ele é a favor da biografia não autorizada, desde que autorizada! Rarará!
E o Enem? Enem quer dizer Eu Não Escrevi Miojo! Um amigo me ligou todo contente: "Passei! Eu Não Escrevi Miojo!".
E adorei o aviso a todos os candidatos: "Quem for fazer o Enem no chute, não faça como o Pato". E os barrados no Enem? Evangélica sem noção parou pra orar, perdeu a hora e ficou gritando no portão: "Abre em nome de Jesus! Abre em nome de Jesus!". Mas não era melhor gritar "Abra-te Sésamo"? Rarará!
E o tema da redação: Lei Seca! Ou seja, bafômetro. Reprovados: Mano Menezes, Luciano Huck e Aécio Neves! Rarará!
E o site Futirinhas revela o Enem dos jogadores. Sheik: foi expulso da sala após tentar dar um selinho no aplicador da prova. Ceni: chegou três dias antes da prova. Ganso: acertou uma questão e já ficou cobrando vaga na USP. Pato: respondeu tudo no chute e errou todas! Valdivia: fraturou a mão com o peso da prova e vai ficar 800 dias afastado. Roberto Dinamite: não pagou a taxa pra fazer a prova. E o Walter não foi porque era hora da feijoada! Rarará.
E adorei a charge do Nani com o Obama no divã do psicanalista: "Ouço vozes!". Rarará. "Qual o seu problema, presidente Obama?" "Ouço vozes. Todas as vozes do mundo."
E a charge do Aroeira com a ameaça da Merkel: "Se vocês continuarem me espionando, a gente invade a Polônia de novo!". Rarará. E a filosofia do Obama: quem espiona o que eu estou espionando é espionagem!
E essa piada pronta do caso Alstom: "Procurador de São Paulo disse que não atendeu aos pedidos de investigação da Justiça suíça porque colocou em: pasta errada". TÓÓÓIM!
E essa direto de Portugal: "Fusão da Portugal Telecom com Oi levará à extinção da PT". Só Portugal pra conseguir isso! Rarará!
É mole? É mole, mas sobe!
E como a redação do Enem foi o bafômetro, me lembrei da loira que foi parada pelo guarda: "Carteira Nacional de Habilitação". "Não tenho e nem sei o que é isso." "IPVA." "Não tenho e nem sei o que é isso." Aí o guarda abre a braguilha e bota o pingolim pra fora: "E isso, você sabe o que é?". "Ah, não! Bafômetro de novo!" Rarará.
Nóis sofre, mas nóis goza.
Enem quer dizer Eu Não Escrevi Miojo! Um amigo me ligou todo contente: "Passei! Eu Não Escrevi Miojo!"
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E adorei o Roberto Carlos no "Cansástico": ele é a favor da biografia não autorizada, desde que autorizada! Rarará!
E o Enem? Enem quer dizer Eu Não Escrevi Miojo! Um amigo me ligou todo contente: "Passei! Eu Não Escrevi Miojo!".
E adorei o aviso a todos os candidatos: "Quem for fazer o Enem no chute, não faça como o Pato". E os barrados no Enem? Evangélica sem noção parou pra orar, perdeu a hora e ficou gritando no portão: "Abre em nome de Jesus! Abre em nome de Jesus!". Mas não era melhor gritar "Abra-te Sésamo"? Rarará!
E o tema da redação: Lei Seca! Ou seja, bafômetro. Reprovados: Mano Menezes, Luciano Huck e Aécio Neves! Rarará!
E o site Futirinhas revela o Enem dos jogadores. Sheik: foi expulso da sala após tentar dar um selinho no aplicador da prova. Ceni: chegou três dias antes da prova. Ganso: acertou uma questão e já ficou cobrando vaga na USP. Pato: respondeu tudo no chute e errou todas! Valdivia: fraturou a mão com o peso da prova e vai ficar 800 dias afastado. Roberto Dinamite: não pagou a taxa pra fazer a prova. E o Walter não foi porque era hora da feijoada! Rarará.
E adorei a charge do Nani com o Obama no divã do psicanalista: "Ouço vozes!". Rarará. "Qual o seu problema, presidente Obama?" "Ouço vozes. Todas as vozes do mundo."
E a charge do Aroeira com a ameaça da Merkel: "Se vocês continuarem me espionando, a gente invade a Polônia de novo!". Rarará. E a filosofia do Obama: quem espiona o que eu estou espionando é espionagem!
E essa piada pronta do caso Alstom: "Procurador de São Paulo disse que não atendeu aos pedidos de investigação da Justiça suíça porque colocou em: pasta errada". TÓÓÓIM!
E essa direto de Portugal: "Fusão da Portugal Telecom com Oi levará à extinção da PT". Só Portugal pra conseguir isso! Rarará!
É mole? É mole, mas sobe!
E como a redação do Enem foi o bafômetro, me lembrei da loira que foi parada pelo guarda: "Carteira Nacional de Habilitação". "Não tenho e nem sei o que é isso." "IPVA." "Não tenho e nem sei o que é isso." Aí o guarda abre a braguilha e bota o pingolim pra fora: "E isso, você sabe o que é?". "Ah, não! Bafômetro de novo!" Rarará.
Nóis sofre, mas nóis goza.
Vida e morte em Venaza
- ARNALDO JABOR
O Estado de S.Paulo -
29/10
Estou em Veneza. Estava precisando mesmo de um pouco de arte, impregnado de todos os bodes do Brasil, pois sou esponja das notícias e dos fatos que elas escondem. Esse dias aqui têm sido um banho de purificação contra escândalos da Justiça, bandidos do PCC, balas perdidas, frases pomposas de ministros, mentiras de fisiológicos, ladrões de casaca, que envenenam minha função de comentarista.
Mergulhei na espantosa beleza da cidade e nas obras da Renascença que atulham aquela antiga República do comércio entre o Oriente e Ocidente e bateu-me a verdade óbvia: a grande obra de arte só floresce onde há dinheiro.
Sim, puros românticos, nos palácios dos Doges, nas igrejas bizantina-cristãs, nos tetos, portais, afrescos, em tudo jorram as encomendas da vaidade dos poderosos ou dos sacerdotes de Deus, que empresavam as oficinas de artesãos, comandadas por gênios como Tintoretto, Veronese, Ticiano. Fiquei dias dentro da Scuola Grande di San Rocco, na Academia, tudo.
Depois eu fui ver a casa de Peggy Guggenheim, onde estão tesouros da arte moderna dos primeiros 40 anos do século 20. E, em seguida, fui ver a arte contemporânea na Bienal de Veneza. Assim, nos últimos dias eu vi a Renascença, o Modernismo e o "pós-modernismo", se esse nome ainda cabe.
Foi um show de contrastes que me deu uma certeza: sem esperança não há arte. Mesmo nas obras de encomenda de duques e cardeais do século 16, feitas por empregados que podiam ir até em cana se não satisfizessem os poderosos, havia um fervor religioso ou meramente fabril, havia uma fé na beleza, nos ventos novos que humanizavam a figura. A genialidade de Tintoretto não buscava mais a representação estática de uma imobilidade submissa, mas a esperança de captar algum momento de agonia ou de triunfo.
Fui também à Fundação da Peggy Guggenheim, em sua casa à beira do Canal. Lá estão Picasso, Matisse, Kandinsky, Magritte, Pollock, tantos... E é deslumbrante ver o entusiasmo da nova arte que se desenhava no início do século 20, a arte como a militância por uma beleza construtiva, o olho humano sendo enriquecido, na "esperança" de que a modernidade se aperfeiçoasse, unida às grandes utopias do século 20. Os artistas modernos queriam repensar o mundo nas suas formas; e mesmo em um conceito deprimido, havia na atitude um desejo de mudança para algo melhor.
Depois, fui à Bienal de Veneza. A sensação dominante é a de que há qualquer coisa "faltando" na arte contemporânea. Há uma ausência, uma "hiância", como escreveu Mallarmé, um grande vazio em museus e bienais. Os pavilhões repetem os códigos e repertórios: terra arrasada, materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma busca deliberada da feiura, uma clara vergonha de ser "arte".
A fruição poética é impedida como se o prazer fosse uma coisa reacionária, ignorando o "mal do mundo", que tem de ser esfregado na cara do espectador para que ele não esqueça o horror social e político que nos assola. Só que o mundo mudou muito. Depois do 11 de setembro, principalmente, ficou nítido que o mundo é hoje pior que qualquer representação deprimida. A destruição que vemos na vida, o império da sordidez mercantil, a ignorância no poder, o fanatismo do terror, a boçalidade da indústria cultural, o beco sem saída do racismo e do fundamentalismo, a destruição ambiental, em suma, toda a tempestade de bosta que nos ronda, está muito além de qualquer "denúncia" artística; o mal é tão profundo, tão difuso, que denunciá-lo mecanicamente, destruindo a própria arte como uma "prova do crime" virou uma ociosa cumplicidade. Em geral, é uma "arte engajada" no desespero.
A Bienal de Veneza (furada por alguns talentos individuais, claro: Paul McCarthy, Ai Weiwei, Nicola Constantino, maravilhosa argentina, ou Pawel Althamer) virou um parque temático de deprimidos, um muro de lamentações inúteis. Não adianta mais "chocar" ninguém, pois nada é mais chocante que a miséria global e a estupidez universal do inferno de hoje. O absurdismo do pós-guerra, nos anos 50, a arte pop, todo o desespero crítico ou paródico tinha um claro alvo construtivo em sua militância. Havia esperança na angústia. Hoje, sobrou apenas a psicose como bandeira, a melancolia como "denúncia" de uma vida sem solução. Lembro-me de uma frase de um crítico americano que disse que "antigamente os artistas de vanguarda queriam chocar a classe média; hoje a classe media é que choca os artistas". É claro que a arte tem de acusar o golpe do tempo atual. Mas não pode ser uma vitimização simplista, um desespero oportunista. Nada que haja na Bienal nos choca mais que uma explosão da discotecas onde morrem 300 jovens, nada é pior que a África ou a lama das favelas e periferias. Nada. E, aí, vemos a verdade: grande parte da arte contemporânea está aquém da realidade. É muito óbvio o uso do santo nome de Marcel Duchamp em vão para justificar uma distopia fácil. Que performance ou instalação será mais contundente que a destruição de Nova York, do WTC? Que cadáver exposto dentro de garrafas ou cavalos mortos ou ruínas são mais assustadoras que a eternidade da guerra Israel-Árabe ou do inferno da Síria?
Nunca esqueço da frase de Stravinski: "A obra de arte deve ser exaltante". Não se trata de uma cegueira complacente com o erro, mas uma ação exaltante da vida, da existência humana, exaltante de algo que está se perdendo. Muitos artistas se acham "militantes", mas estão abrindo mão da reflexão na arte para o eixo do mal capitalista. Críticos e curadores seguem de cabeça baixa, sem coragem de denunciar oportunismos, por medo de serem chamados de caretas ou reacionários. Será que o "novo" não pode ser um "belo" que denuncie, com sua luz, a injusta vida? Um bom exemplo é a obra de um gênio grafiteiro como Basquiat.
Em matéria de eventos de destruição esquemática do capitalismo, ninguém é melhor artista que os homens-bomba.
Estou em Veneza. Estava precisando mesmo de um pouco de arte, impregnado de todos os bodes do Brasil, pois sou esponja das notícias e dos fatos que elas escondem. Esse dias aqui têm sido um banho de purificação contra escândalos da Justiça, bandidos do PCC, balas perdidas, frases pomposas de ministros, mentiras de fisiológicos, ladrões de casaca, que envenenam minha função de comentarista.
Mergulhei na espantosa beleza da cidade e nas obras da Renascença que atulham aquela antiga República do comércio entre o Oriente e Ocidente e bateu-me a verdade óbvia: a grande obra de arte só floresce onde há dinheiro.
Sim, puros românticos, nos palácios dos Doges, nas igrejas bizantina-cristãs, nos tetos, portais, afrescos, em tudo jorram as encomendas da vaidade dos poderosos ou dos sacerdotes de Deus, que empresavam as oficinas de artesãos, comandadas por gênios como Tintoretto, Veronese, Ticiano. Fiquei dias dentro da Scuola Grande di San Rocco, na Academia, tudo.
Depois eu fui ver a casa de Peggy Guggenheim, onde estão tesouros da arte moderna dos primeiros 40 anos do século 20. E, em seguida, fui ver a arte contemporânea na Bienal de Veneza. Assim, nos últimos dias eu vi a Renascença, o Modernismo e o "pós-modernismo", se esse nome ainda cabe.
Foi um show de contrastes que me deu uma certeza: sem esperança não há arte. Mesmo nas obras de encomenda de duques e cardeais do século 16, feitas por empregados que podiam ir até em cana se não satisfizessem os poderosos, havia um fervor religioso ou meramente fabril, havia uma fé na beleza, nos ventos novos que humanizavam a figura. A genialidade de Tintoretto não buscava mais a representação estática de uma imobilidade submissa, mas a esperança de captar algum momento de agonia ou de triunfo.
Fui também à Fundação da Peggy Guggenheim, em sua casa à beira do Canal. Lá estão Picasso, Matisse, Kandinsky, Magritte, Pollock, tantos... E é deslumbrante ver o entusiasmo da nova arte que se desenhava no início do século 20, a arte como a militância por uma beleza construtiva, o olho humano sendo enriquecido, na "esperança" de que a modernidade se aperfeiçoasse, unida às grandes utopias do século 20. Os artistas modernos queriam repensar o mundo nas suas formas; e mesmo em um conceito deprimido, havia na atitude um desejo de mudança para algo melhor.
Depois, fui à Bienal de Veneza. A sensação dominante é a de que há qualquer coisa "faltando" na arte contemporânea. Há uma ausência, uma "hiância", como escreveu Mallarmé, um grande vazio em museus e bienais. Os pavilhões repetem os códigos e repertórios: terra arrasada, materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma busca deliberada da feiura, uma clara vergonha de ser "arte".
A fruição poética é impedida como se o prazer fosse uma coisa reacionária, ignorando o "mal do mundo", que tem de ser esfregado na cara do espectador para que ele não esqueça o horror social e político que nos assola. Só que o mundo mudou muito. Depois do 11 de setembro, principalmente, ficou nítido que o mundo é hoje pior que qualquer representação deprimida. A destruição que vemos na vida, o império da sordidez mercantil, a ignorância no poder, o fanatismo do terror, a boçalidade da indústria cultural, o beco sem saída do racismo e do fundamentalismo, a destruição ambiental, em suma, toda a tempestade de bosta que nos ronda, está muito além de qualquer "denúncia" artística; o mal é tão profundo, tão difuso, que denunciá-lo mecanicamente, destruindo a própria arte como uma "prova do crime" virou uma ociosa cumplicidade. Em geral, é uma "arte engajada" no desespero.
A Bienal de Veneza (furada por alguns talentos individuais, claro: Paul McCarthy, Ai Weiwei, Nicola Constantino, maravilhosa argentina, ou Pawel Althamer) virou um parque temático de deprimidos, um muro de lamentações inúteis. Não adianta mais "chocar" ninguém, pois nada é mais chocante que a miséria global e a estupidez universal do inferno de hoje. O absurdismo do pós-guerra, nos anos 50, a arte pop, todo o desespero crítico ou paródico tinha um claro alvo construtivo em sua militância. Havia esperança na angústia. Hoje, sobrou apenas a psicose como bandeira, a melancolia como "denúncia" de uma vida sem solução. Lembro-me de uma frase de um crítico americano que disse que "antigamente os artistas de vanguarda queriam chocar a classe média; hoje a classe media é que choca os artistas". É claro que a arte tem de acusar o golpe do tempo atual. Mas não pode ser uma vitimização simplista, um desespero oportunista. Nada que haja na Bienal nos choca mais que uma explosão da discotecas onde morrem 300 jovens, nada é pior que a África ou a lama das favelas e periferias. Nada. E, aí, vemos a verdade: grande parte da arte contemporânea está aquém da realidade. É muito óbvio o uso do santo nome de Marcel Duchamp em vão para justificar uma distopia fácil. Que performance ou instalação será mais contundente que a destruição de Nova York, do WTC? Que cadáver exposto dentro de garrafas ou cavalos mortos ou ruínas são mais assustadoras que a eternidade da guerra Israel-Árabe ou do inferno da Síria?
Nunca esqueço da frase de Stravinski: "A obra de arte deve ser exaltante". Não se trata de uma cegueira complacente com o erro, mas uma ação exaltante da vida, da existência humana, exaltante de algo que está se perdendo. Muitos artistas se acham "militantes", mas estão abrindo mão da reflexão na arte para o eixo do mal capitalista. Críticos e curadores seguem de cabeça baixa, sem coragem de denunciar oportunismos, por medo de serem chamados de caretas ou reacionários. Será que o "novo" não pode ser um "belo" que denuncie, com sua luz, a injusta vida? Um bom exemplo é a obra de um gênio grafiteiro como Basquiat.
Em matéria de eventos de destruição esquemática do capitalismo, ninguém é melhor artista que os homens-bomba.
Homens e animais revistados
s - JOÃO PEREIRA COUTINHO
FOLHA DE SP - 29/10
Dissecar animais em praça pública, como aconteceu no passado, seria impensável nos dias de hoje. Ainda bem
Recebi centenas de e-mails na semana passada por causa de um texto sobre os "direitos dos animais" ("Homens e animais", 22/10). Escuso de esclarecer que a maioria não foi simpática.
Com verdadeiro espírito humanista, muitos dos defensores dos animais desejaram-me doenças que eu, um hipocondríaco confesso, nem sabia que existiam. Sem falar das inevitáveis ameaças de morte, sempre antecedidas de tortura (lenta).
Agradeço a gentileza e espero ansiosamente pelo dia em que o mundo será governado pelo espírito tolerante dessa gente. Para os restantes leitores, que insistiram em seis perguntas recorrentes (e civilizadas), aqui vão respostas civilizadas:
1 - Se é possível fazer pesquisa sem animais, como justificar o uso dos bichos?
Infelizmente, não é possível fazer todo o tipo de pesquisas sem usar animais. Verdade que a ciência evoluiu imenso e a pesquisa "in vitro" (usando células em laboratório, algumas das quais humanas) e "in silico" (com computadores) tem ocupado as pesquisas "in vivo". Mas, para certas patologias, e sobretudo para se obterem respostas precisas a farmacologias várias, é necessário o uso de organismos vivos com certo grau de complexidade (o que exclui, por exemplo, moscas ou lesmas). Não usar animais implicaria, em muitos casos, usar seres humanos --ou, em alternativa, frear o progresso científico.
2 - Os animais dos laboratórios são tratados cruelmente.
Uma absoluta falácia. Os animais domésticos são, muitas vezes, tratados cruelmente. Animais de laboratório são, como o nome indica, seres vivos criados em ambiente controlado (temperatura, som, conforto, comida etc.) de forma a infligir o menor sofrimento possível. É claro que algumas experiências implicam dor ou desconforto. Mas o uso de animais em laboratório está submetido a legislação rigorosa, na qual os "limites de severidade" são cada vez mais apertados.
Dissecar animais em praça pública, como aconteceu no passado para conhecer o sistema circulatório (um feito que fez a medicina avançar vários séculos), seria impensável nos dias de hoje. E ainda bem.
3 - É legítimo usar animais para testar cremes e batons?
Não é legítimo e deve ser severamente punido. Na Europa, já é desde março deste ano. Mas a discussão do artigo lidava com pesquisa médica, não estética. Confundir ambas revela ignorância ou má-fé.
4 - Todos os ativistas dos "direitos dos animais" estão errados?
Pelo contrário: a ciência deve muito aos ativistas razoáveis dos "direitos dos animais", que contribuíram para que a ciência "humanizasse" o seu trato com os bichos.
Os defensores razoáveis dos "direitos dos animais" legaram à ciência o desafio dos "três R's": "to reduce" (reduzir, sempre que possível, o número de animais em laboratório); "to replace" (substituir, sempre que possível, o uso de animais por outra alternativa --estudo de células ou simulação computacional, por exemplo); e "to refine" (refinar, sempre que possível, a forma como a pesquisa é feita --uso de anestésicos e analgésicos quando o desconforto é previsto; criação de um ambiente confortável e estimulante para os animais etc.). O diálogo entre cientistas e "eticistas" deve por isso continuar.
5 - Você não gosta de animais e por isso defende o uso deles pela ciência?
Não pretendo tornar a discussão pessoal. Mas gosto de animais, tenho animais e até já escrevi sobre todas as lições "filosóficas" que aprendi com o meu gato.
6 - Todas as vidas são sagradas e nenhum animal deve ser sacrificado para nosso benefício.
Quem parte dessa premissa encerra o debate mesmo antes dele começar. Infelizmente, não tenho essas certezas --e, como onívoro, é evidente que continuo a usar os animais como fonte principal de alimentação. Sobre a "sacralidade" da vida, confesso uma certa paralisia agônica com certos cálculos utilitaristas mesmo em relação à vida humana (para mim, a mais importante).
Se, por hipótese, fosse possível salvar 10 milhões de pessoas gravemente doentes pelo sacrifício em laboratório de dez indivíduos, valeria a pena matar esses dez inocentes?
Instintivamente, direi que não e ficarei feliz com as minhas vaidades deontológicas. Pensando friamente, não sei se diria não --e que Deus, ou o sr. Kant, me perdoe. Porém, se a vida de 10 milhões de pessoas dependesse da vida do meu gato, não haveria hesitação alguma.
Dissecar animais em praça pública, como aconteceu no passado, seria impensável nos dias de hoje. Ainda bem
Recebi centenas de e-mails na semana passada por causa de um texto sobre os "direitos dos animais" ("Homens e animais", 22/10). Escuso de esclarecer que a maioria não foi simpática.
Com verdadeiro espírito humanista, muitos dos defensores dos animais desejaram-me doenças que eu, um hipocondríaco confesso, nem sabia que existiam. Sem falar das inevitáveis ameaças de morte, sempre antecedidas de tortura (lenta).
Agradeço a gentileza e espero ansiosamente pelo dia em que o mundo será governado pelo espírito tolerante dessa gente. Para os restantes leitores, que insistiram em seis perguntas recorrentes (e civilizadas), aqui vão respostas civilizadas:
1 - Se é possível fazer pesquisa sem animais, como justificar o uso dos bichos?
Infelizmente, não é possível fazer todo o tipo de pesquisas sem usar animais. Verdade que a ciência evoluiu imenso e a pesquisa "in vitro" (usando células em laboratório, algumas das quais humanas) e "in silico" (com computadores) tem ocupado as pesquisas "in vivo". Mas, para certas patologias, e sobretudo para se obterem respostas precisas a farmacologias várias, é necessário o uso de organismos vivos com certo grau de complexidade (o que exclui, por exemplo, moscas ou lesmas). Não usar animais implicaria, em muitos casos, usar seres humanos --ou, em alternativa, frear o progresso científico.
2 - Os animais dos laboratórios são tratados cruelmente.
Uma absoluta falácia. Os animais domésticos são, muitas vezes, tratados cruelmente. Animais de laboratório são, como o nome indica, seres vivos criados em ambiente controlado (temperatura, som, conforto, comida etc.) de forma a infligir o menor sofrimento possível. É claro que algumas experiências implicam dor ou desconforto. Mas o uso de animais em laboratório está submetido a legislação rigorosa, na qual os "limites de severidade" são cada vez mais apertados.
Dissecar animais em praça pública, como aconteceu no passado para conhecer o sistema circulatório (um feito que fez a medicina avançar vários séculos), seria impensável nos dias de hoje. E ainda bem.
3 - É legítimo usar animais para testar cremes e batons?
Não é legítimo e deve ser severamente punido. Na Europa, já é desde março deste ano. Mas a discussão do artigo lidava com pesquisa médica, não estética. Confundir ambas revela ignorância ou má-fé.
4 - Todos os ativistas dos "direitos dos animais" estão errados?
Pelo contrário: a ciência deve muito aos ativistas razoáveis dos "direitos dos animais", que contribuíram para que a ciência "humanizasse" o seu trato com os bichos.
Os defensores razoáveis dos "direitos dos animais" legaram à ciência o desafio dos "três R's": "to reduce" (reduzir, sempre que possível, o número de animais em laboratório); "to replace" (substituir, sempre que possível, o uso de animais por outra alternativa --estudo de células ou simulação computacional, por exemplo); e "to refine" (refinar, sempre que possível, a forma como a pesquisa é feita --uso de anestésicos e analgésicos quando o desconforto é previsto; criação de um ambiente confortável e estimulante para os animais etc.). O diálogo entre cientistas e "eticistas" deve por isso continuar.
5 - Você não gosta de animais e por isso defende o uso deles pela ciência?
Não pretendo tornar a discussão pessoal. Mas gosto de animais, tenho animais e até já escrevi sobre todas as lições "filosóficas" que aprendi com o meu gato.
6 - Todas as vidas são sagradas e nenhum animal deve ser sacrificado para nosso benefício.
Quem parte dessa premissa encerra o debate mesmo antes dele começar. Infelizmente, não tenho essas certezas --e, como onívoro, é evidente que continuo a usar os animais como fonte principal de alimentação. Sobre a "sacralidade" da vida, confesso uma certa paralisia agônica com certos cálculos utilitaristas mesmo em relação à vida humana (para mim, a mais importante).
Se, por hipótese, fosse possível salvar 10 milhões de pessoas gravemente doentes pelo sacrifício em laboratório de dez indivíduos, valeria a pena matar esses dez inocentes?
Instintivamente, direi que não e ficarei feliz com as minhas vaidades deontológicas. Pensando friamente, não sei se diria não --e que Deus, ou o sr. Kant, me perdoe. Porém, se a vida de 10 milhões de pessoas dependesse da vida do meu gato, não haveria hesitação alguma.
Memórias
SCHWARTSMAN
SÃO PAULO - Roberto Carlos, o rei, que bloqueou na Justiça a circulação de um livro sobre a sua vida, agora diz que é a favor de biografias não autorizadas e informa que está escrevendo suas memórias. Qual das duas obras é mais confiável?
Obviamente, essa não é uma questão que possa ser respondida "a priori", mas temos boas razões para desconfiar das autobiografias. E não porque candidatos a ídolo sejam todos mentirosos compulsivos. O problema é que nossas memórias, embora nos pareçam vívidas a ponto de as julgarmos uma espécie de fotografia do passado, são mais bem descritas como uma fantasia de nossas psiques.
O que o cérebro guarda são registros hipertaquigráficos a partir dos quais nossa mente reconstrói o episódio cada vez que nos lembramos dele. Esse processo é distorcido pelo que estamos sentindo ou pensando quando acionamos a memória. Algumas lembranças ficam estáveis por décadas, outras são sutilmente modificadas e há as que sofrem transformações profundas. Elas são indistinguíveis em nossas cabeças.
Essas mudanças não ocorrem ao sabor do acaso. A memória não evoluiu para promover a verdade, mas para nos fazer viver vidas melhores. Ela não deve ser uma alucinação tão tresloucada que nos leve a cometer erros fatais, mas, se as distorções forem no sentido de nos tornar mais seguros e confiantes, são mais do que bem-vindas. Nós nos lembramos muito mais daquilo com o que podemos viver do que daquilo que efetivamente vivemos.
A notável exceção são as pessoas clinicamente deprimidas, que fazem uma avaliação surpreendentemente realistas de si mesmas. Não se sabe se é a depressão que leva à percepção mais acurada ou se é a visão mais realista que provoca os pensamentos deprimentes. De todo modo, o excesso de realismo não é muito saudável.
Se você é um leitor em busca de verdades, só compre autobiografias de depressivos notórios
SÃO PAULO - Roberto Carlos, o rei, que bloqueou na Justiça a circulação de um livro sobre a sua vida, agora diz que é a favor de biografias não autorizadas e informa que está escrevendo suas memórias. Qual das duas obras é mais confiável?
Obviamente, essa não é uma questão que possa ser respondida "a priori", mas temos boas razões para desconfiar das autobiografias. E não porque candidatos a ídolo sejam todos mentirosos compulsivos. O problema é que nossas memórias, embora nos pareçam vívidas a ponto de as julgarmos uma espécie de fotografia do passado, são mais bem descritas como uma fantasia de nossas psiques.
O que o cérebro guarda são registros hipertaquigráficos a partir dos quais nossa mente reconstrói o episódio cada vez que nos lembramos dele. Esse processo é distorcido pelo que estamos sentindo ou pensando quando acionamos a memória. Algumas lembranças ficam estáveis por décadas, outras são sutilmente modificadas e há as que sofrem transformações profundas. Elas são indistinguíveis em nossas cabeças.
Essas mudanças não ocorrem ao sabor do acaso. A memória não evoluiu para promover a verdade, mas para nos fazer viver vidas melhores. Ela não deve ser uma alucinação tão tresloucada que nos leve a cometer erros fatais, mas, se as distorções forem no sentido de nos tornar mais seguros e confiantes, são mais do que bem-vindas. Nós nos lembramos muito mais daquilo com o que podemos viver do que daquilo que efetivamente vivemos.
A notável exceção são as pessoas clinicamente deprimidas, que fazem uma avaliação surpreendentemente realistas de si mesmas. Não se sabe se é a depressão que leva à percepção mais acurada ou se é a visão mais realista que provoca os pensamentos deprimentes. De todo modo, o excesso de realismo não é muito saudável.
Se você é um leitor em busca de verdades, só compre autobiografias de depressivos notórios
domingo, 27 de outubro de 2013
Coitado do homem - FABRÍCIO CARPINEJAR
ZERO HORA - 27/10
Um dos impasses masculinos no casamento é conciliar a porção macho protetor e a porção criança feliz.
Porque sua mulher ama quando você é adulto, seguro, firme, decidido, capaz de resolver crises e contas, dar colo e acalmar, dizer que tudo vai dar certo com a voz resoluta de radialista.
A mulher ama e espera ser amada desse modo. Com alguém disposto a oferecer segurança e sentido, com o peito maior do que o travesseiro, para aninhar e resguardar cheiros e futuro. Com um homem que acaricie seus cabelos em silêncio, sem que ela descubra o que ele está pensando.
Mas, se o homem está feliz ao lado da mulher, será uma criança. Eis o grande problema da dinâmica de casal: se a mulher faz o homem feliz, ele será uma criança, daí é ela que ficará descontente. Parece que precisa deixar o homem preocupado para ser feliz, mesmo que resulte na tristeza dele.
Homem bom para a ala das noivas é melancólico, aborrecido, casmurro, fortaleza enigmática, caixa com senha numérica e alfabética.
Já um homem realizado é livre como um campo de futebol num dia ensolarado. Muda seu riso, seu olhar brilha, seu rosto se amplia e se torna uma matraca. Transforma-se num bobo carente, disposto a fazer troça de qualquer assunto. Não leva coisa alguma a sério. Debochado, hiperativo, como se estivesse arremessando aviãozinho ainda do fundo da sala de aula. Vai apertar, morder, empurrar, beliscar, incomodar, perturbar, série de movimentos proibitivos da fantasia feminina.
Nos momentos de euforia do namoro, reproduz a descontração com seus amigos: em especial na pelada e no boteco. Um churrasco entre barbados exemplifica sua felicidade: os participantes só vão confidenciar bobagens e besteiras sobre sexo e carreira. A frequência estará desembaraçada, ingênua, afeita a piadas, gafes e fraquezas cômicas.
Homem brinca de brigar, mulher quando briga não gosta de brincar, entende a diferença? É um cacoete ancestral, egresso do jardim da infância. No recreio, o homem fingia guerra com os colegas para mostrar apego. Por sua vez, a mulher se divertia em montar casinha, em estabelecer ordem e hierarquia nas emoções e afetos.
A questão é que a mulher não ama quando seu marido se infantiliza, porém é quando ele está mais à vontade. É quando ele verdadeiramente está amando. A mulher é seduzida pela imagem do homem tenso e guardião, e não suporta o menino enfeitiçado pelo encantamento da relação.
Na realidade, a mulher se irrita quando sua companhia assume ares de palhaço, ou de louco. Julga comportamentos hostis, que não inspiram nenhuma confiança. Despreza essas demonstrações circenses de disputa. Tente derrubá-la na cama fora do clima sexual, que ela ficará puta da vida.
Odeia quando seu marido se mantém hipnotizado assistindo uma partida da Série C, ou na medida em que inventa de jogar playstation e perde a hora ou ainda começa a jogar bolinha dentro de casa e quebra objetos. Odeia sua birra e manha, seu timbre de desenho animado, suas miradas tristonhas de chantagem.
A mulher jamais vai nos entender. Portanto, você tem que alternar com sabedoria os dois momentos. Este é o ponto delicado: encontrar a medida. Ser os dois ao mesmo tempo sempre, e nunca exageradamente.
Nem ser demais um, nem deixar de ser o outro.
Nem ser pai demais da esposa, nem ser seu filho
Um dos impasses masculinos no casamento é conciliar a porção macho protetor e a porção criança feliz.
Porque sua mulher ama quando você é adulto, seguro, firme, decidido, capaz de resolver crises e contas, dar colo e acalmar, dizer que tudo vai dar certo com a voz resoluta de radialista.
A mulher ama e espera ser amada desse modo. Com alguém disposto a oferecer segurança e sentido, com o peito maior do que o travesseiro, para aninhar e resguardar cheiros e futuro. Com um homem que acaricie seus cabelos em silêncio, sem que ela descubra o que ele está pensando.
Mas, se o homem está feliz ao lado da mulher, será uma criança. Eis o grande problema da dinâmica de casal: se a mulher faz o homem feliz, ele será uma criança, daí é ela que ficará descontente. Parece que precisa deixar o homem preocupado para ser feliz, mesmo que resulte na tristeza dele.
Homem bom para a ala das noivas é melancólico, aborrecido, casmurro, fortaleza enigmática, caixa com senha numérica e alfabética.
Já um homem realizado é livre como um campo de futebol num dia ensolarado. Muda seu riso, seu olhar brilha, seu rosto se amplia e se torna uma matraca. Transforma-se num bobo carente, disposto a fazer troça de qualquer assunto. Não leva coisa alguma a sério. Debochado, hiperativo, como se estivesse arremessando aviãozinho ainda do fundo da sala de aula. Vai apertar, morder, empurrar, beliscar, incomodar, perturbar, série de movimentos proibitivos da fantasia feminina.
Nos momentos de euforia do namoro, reproduz a descontração com seus amigos: em especial na pelada e no boteco. Um churrasco entre barbados exemplifica sua felicidade: os participantes só vão confidenciar bobagens e besteiras sobre sexo e carreira. A frequência estará desembaraçada, ingênua, afeita a piadas, gafes e fraquezas cômicas.
Homem brinca de brigar, mulher quando briga não gosta de brincar, entende a diferença? É um cacoete ancestral, egresso do jardim da infância. No recreio, o homem fingia guerra com os colegas para mostrar apego. Por sua vez, a mulher se divertia em montar casinha, em estabelecer ordem e hierarquia nas emoções e afetos.
A questão é que a mulher não ama quando seu marido se infantiliza, porém é quando ele está mais à vontade. É quando ele verdadeiramente está amando. A mulher é seduzida pela imagem do homem tenso e guardião, e não suporta o menino enfeitiçado pelo encantamento da relação.
Na realidade, a mulher se irrita quando sua companhia assume ares de palhaço, ou de louco. Julga comportamentos hostis, que não inspiram nenhuma confiança. Despreza essas demonstrações circenses de disputa. Tente derrubá-la na cama fora do clima sexual, que ela ficará puta da vida.
Odeia quando seu marido se mantém hipnotizado assistindo uma partida da Série C, ou na medida em que inventa de jogar playstation e perde a hora ou ainda começa a jogar bolinha dentro de casa e quebra objetos. Odeia sua birra e manha, seu timbre de desenho animado, suas miradas tristonhas de chantagem.
A mulher jamais vai nos entender. Portanto, você tem que alternar com sabedoria os dois momentos. Este é o ponto delicado: encontrar a medida. Ser os dois ao mesmo tempo sempre, e nunca exageradamente.
Nem ser demais um, nem deixar de ser o outro.
Nem ser pai demais da esposa, nem ser seu filho
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