sábado, 30 de novembro de 2013

O homem duplicado

 - José Saramago

“Tanto é o que precisamos de lançar culpas a algo distante quando o que nos faltou foi a coragem de encarar o que estava na nossa frente.”

“...o que sucede é que tudo me cansa e aborrece, esta maldita rotina, esta repetição, este marcar passo, Distraia-se, homem, distrair-se sempre foi o melhor remédio, Dê-me licença que lhe diga que distrair-se é o remédio de quem não precisa dele...”

“Não se pode exigir a toda a gente que seja sensata, Por isso o mundo está como está.”

“...estar de acordo nem sempre significa compartilhar uma razão.”

“Há coisas que nunca se poderão explicar por palavras.”

“Talvez rejeição não seja a palavra mais apropriada, o caracol não rejeita o dedo que lhe toca, encolhe-se, Será a maneira que ele tem de rejeitar, Será, No entanto, você, à vista desarmada, não tem nada de caracol, Às vezes penso que nos parecemos muito, Quem, você e eu, Não, eu e o caracol...”

“...o senso comum é demasiado comum para ser senso.”

“De fato, nunca se sabe muito bem para que servem as vitórias, suspirou o professor de matemática, Mas as derrotas sabe-se muito bem para que servem.”

“É de todos conhecidos, porém, que a enorme carga de tradição, hábitos e costumes que ocupa a maior parte do nosso cérebro lastram sem piedade as idéias mais brilhantes e inovadoras de que a parte restante ainda é capaz...”

“...pensa nas contradições da vida, no fato de que para ganhar uma batalha às vezes possa ser necessário perdê-la...”

“A vida tem me ensinado que nenhuma coisa é simples, que só às vezes o parece, e que é justamente quando mais o parecer que mais nos convirá duvidar.”

“...é tanto o que temos para dizer quando nos calamos...”

“...pensava que o pior de todos os muros é uma porta de que nunca se tem a chave, e ele não sabia onde a encontrar, nem sabia sequer se tal chave existia.”

Impostos invisíveis - CRISTOVAM BUARQUE

O GLOBO - 30/11

A elite compra o direito de não misturar os serviços privados que usa com os serviços públicos



No Brasil, os contribuintes só começam a trabalhar para si a partir do dia 30 de maio de cada ano. Do 1º de janeiro até esse dia, trabalham para pagar impostos. Isso seria menos grave se, em troca desse trabalho para o Fisco, o contribuinte recebesse de volta os serviços públicos de que carece, na quantidade e qualidade devidas.

Não é isso que ocorre. Além dos 150 dias de impostos visíveis, o contribuinte passa cerca de 26 dias adicionais por ano para pagar, sob a forma de “impostos invisíveis”, a escola dos filhos, a saúde da família e a segurança de seu dia a dia. São os “impostos invisíveis” relacionados com os gastos em que a classe média incorre todo ano: cerca de R$ 60 bilhões (1,3% do PIB) com educação privada, R$ 40 bilhões (0,87% do PIB) com segurança privada e pelo menos R$ 180 bilhões (4% do PIB) com planos privados de saúde.

Este gasto é maior se considerarmos os custos causados pela ineficiência social e econômica que recai sobre o cidadão brasileiro. O sistema deficiente da educação provoca elevados gastos sobre o funcionamento da sociedade, prejudicando a vida dos contribuintes. A falta de segurança depreda patrimônio, prejudica a saúde e mata pessoas.

Mas os contribuintes preferem pedir redução dos tributos visíveis pagos explicitamente aos governos (federal, estadual e municipal) do que eliminar os “impostos invisíveis”, com os quais compram no mercado os serviços que deveriam ser providos pelo setor público. Um sistema educacional e um de saúde de qualidade para todos aliviariam os contribuintes de classes média e alta; uma sociedade pacífica, graças a um sistema social mais equilibrado e eficiente representaria uma elevação na qualidade de vida.

A vocação pelo privado, o gosto pelo imediato e a preferência pelo distanciamento em relação ao povo fazem o contribuinte brasileiro aceitar os “impostos invisíveis”. Com isso, a elite compra o direito de não misturar os serviços privados que usa com os serviços públicos do povo.

A tolerância e a condescendência em pagar “impostos privados invisíveis”, em vez de pagar “impostos sociais eficientes”, decorrem de características que dominam o inconsciente coletivo da elite nacional. A vigência de uma ética pela qual se valoriza o privado mais do que o público; a segregação social que leva a parcela rica e de classe média a não querer se misturar em escolas iguais, hospitais iguais nem fazer a distribuição de renda que tornaria o Brasil um país pacífico fazem parte da mente do Brasil e de sua preferência pelo imediatismo. O contribuinte prefere pagar o “imposto invisível” para ter o retorno imediato, para si e sua família, do que pagar hoje e esperar um retorno posterior para toda a população.

Até porque, além de imediatista, o contribuinte tem razão de ser desconfiado com o uso de seu dinheiro por parte dos governos. Prefere pagar privadamente altos “impostos invisíveis” do que exigir os resultados públicos dos impostos visíveis.

Nós vamos transformar a educação pública do País - JAIR RIBEIRO

O ESTADO DE S. PAULO - 30/11
Pode até ter virado um repisado cli­chê, mas não custa repetir: o nosso maior desafio co­mo nação é melhorar a qualidade da educação bá­sica. Apesar dos avanços das últimas décadas, ainda estamos longe de vencer essa guerra.
Mais de 25% das crianças cursando o 4.0 ano não sabem ler e escrever de forma adequa­da à sua série. Ainda temos Esta­dos com cerca de 80% de alunos que não conseguem sequer pro­duzir um pequeno parágrafo! (Prova ABC - 2013)
Mais de 50% dos jovens de 14 a 18 anos estão fora do ensino médio. A evasão está aumentan­do e apenas 10% dos que se for­mam no ensino médio domi­nam o conteúdo esperado para as suas séries
E a estatística recente que mais me chocou: cerca de 25% dos jovens brasileiros de 18 a 24 anos não completaram o ensino médio, não estudam e não traba­lham (estudo da Fundação Seade, agosto 2013). Ou seja, esta­mos jogando pelo ralo o tal bô­nus demográfico brasileiro, um verdadeiro absurdo!
Com uma realidade dessas, como estranhar os fracos índi­ces de produtividade do traba­lhador brasileiro? Como recla­mar e olhar com ares de surpre­sa para a existência do chamado apagão de mão de obra? Como não perceber aí a causa funda­mental dos altíssimos índices de criminalidade (mais de 5 mil homicídios por ano, seis a cada hora!) e da enorme e devastado­ra desigualdade de renda pre­sente em nosso país?
Particularmente, entendo que o desafio da melhoria da nossa educação pública não de­ve ser apenas delegado aos go­vernos. Por sua relevância, é al­go que requer o envolvimento de toda a sociedade civil.
Talvez o leitor que me acom­panha até aqui pergunte: o que eu, empresário, executivo ou profissional liberal e leitor des­se jornal, posso fazer? Arrisco a sugerir um caminho.
Primeiro, passe a acompa­nhar mais de perto e a se familia­rizar com o assunto por meio de sites como o do Movimento To­dos pela Educação e outras fon­tes sérias. Na sequência, profis­sionais como você, com voca­ção, preparo e experiência em execução e gestão de projetos e empresas, podem se envolver diretamente. De preferência procurando apoiar programas já existentes e testados.
Há cerca de dez anos cofundei a Parceiros da Educação, uma organização que promove parcerias entre empresas, em­presários ou executivos e as es­colas públicas do Estado de São Paulo (hoje também estamos no Rio de Janeiro). Já são mais de 60 escolas no programa, impactando a vida de dezenas de milhares de crianças. Nosso ob­jetivo se subdivide em dois. O primeiro é elevar o aproveita­mento dos alunos das nossas es­colas. O segundo, em função da nossa experiência de uma déca­da, impactar e influenciar positi­vamente as políticas públicas dos Estados e municípios em que atuamos.
Como resultado dessa inser­ção na política pública, apoia­mos, com outras 15 das mais re­presentativas organizações ligadas à educação, um programa bastante ambicioso da Secreta­ria da Educação do Estado de São Paulo que tem um objetivo tão claro quanto inspirador: transformar significativamen­te o nosso sistema de ensino es­tadual, colocando-o entre os 25 melhores do mundo em 20 anos, além de transformar a car­reira do professor numa das dez mais desejadas e respeitadas do Estado (Educação - Compro­misso de São Paulo, http://www. educacao.sp.gov.br/portal/projetos/compromisso-sp).
Um dos pilares transformacionais desse programa consis­te na ampla difusão das escolas de período integral. Nesse mo­delo os alunos entram às 7 ho­ras da manhã e saem às 4 da tar­de. Os professores, seleciona­dos na rede pública, têm dedica­ção exclusiva a apenas uma es­cola e para tanto recebem um aumento salarial de 75%. No ensino médio há disciplinas eleti­vas propostas por professores e alunos, clubes juvenis, e cada aluno desenvolve o seu Projeto de Vida, em que o jovem escre­ve seu sonho e traça um plano de como concretizá-lo. Todas
as escolas contam com estrutu­ras bem mais completas e ade­quadas, com laboratórios de ciências e salas de informática.
Hoje são 70 unidades nesse modelo. Em 2014 teremos 182 escolas em regime integral em todo o Estado. O plano é que até 2018 tenhamos mil - 25% da re­de - dentro do novo padrão. Tra­ta-se de uma iniciativa revolu­cionária, que efetivamente nos pode levar a alcançar a ambicio­sa meta que o Estado se propôs a perseguir.
Iniciei uma parceria com uma escola em tempo integral da zona oeste de São Paulo, a Alexandre Von Humboldt, em janeiro de 2012. Já no primeiro ano de parceria conseguimos aumentar o índice de aproveita­mento da escola (Idesp) em 76% - ante 7% da média da rede e 34% das demais escolas do pro­grama de ensino integral. Um salto fantástico em apenas um ano, resultado de uma articula­ção entre o Estado, a escola e a parceria com a sociedade civil!
Vale ressaltar que a base era baixa. Não obstante, este ano es­peramos um novo salto, ainda que não tão grande como o do primeiro ano, mas ainda bastante expressivo.
Por fim, e talvez mais impor­tante do que todas essas estatís­ticas, compartilho com os leito­res o fato de que a sensação de satisfação ao ver o desenvolvi­mento da escola e o impacto nos alunos e nos professores é algo maior e muito especial, que proporciona um sentimen­to de realização indescritivel­mente gratificante.
Pois bem, queremos expan­dir a Parceiros da Educação pa­ra apoiar o projeto de cresci­mento das novas escolas de pe­ríodo integral, participando ati­vamente da construção de algo verdadeiramente transforma­dor. Temos mais de 170 unida­des à procura de parceiros em dezenas de municípios do nos­so Estado. Junte-se ao nosso grupo! Garanto que será das coi­sas mais gratificantes que você fará na sua vida. Um processo tão incrível que começa por ree­ducar a nós mesmos

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O rio do Èdem

Luiz Fernando Veríssimo -

O meu relógio biológico é um Rolex. Não, brincadeira. Nós todos temos um relógio dentro de nós que sempre "sabe" exatamente que horas são, embora nem todo mundo saiba que ele sabe, ou confie nele. O relógio biológico funciona mais ou menos como uma portaria de hotel, à qual você pede para ser acordado a certa hora. Ou como um despertador, que você marca para acordá-lo. O relógio interior pode falhar - as portarias de hotel e os despertadores também falham -, mas sempre que não acreditei no meu me arrependi. O que aconteceu mais de uma vez foi que o relógio biológico me acordou e fiquei na cama, aflito para saber se a portaria iria se lembrar ou o despertador funcionar, e acabei me atrasando. E minha tese é que quando o relógio biológico não nos acorda é porque, no fundo, não queremos acordar. Algum outro instrumento instintivo que carregamos sem saber prevaleceu e neutralizou o relógio.

É fascinante essa ideia de que trazemos nos genes recursos, impulsos, fobias e encargos dos quais não nos damos conta, como relógios embutidos ligados a alguma fonte inimaginavelmente precisa de tempo certo. Somos portadores de mensagens cifradas que não conhecemos, e não entenderíamos se conhecêssemos. Há uma teoria segundo a qual o pavor universal de cobras vem de um resquício do passado reptiliano que ficou num dos cantos primitivos do nosso cérebro. E a mais nobre e misteriosa missão que nossos genes realizam à nossa revelia é a de trazer nosso DNA desde as origens da espécie humana até agora. Ninguém nos contratou, mas nossa função no mundo é transportar DNA.
O famoso biólogo darwinista Richard Dawkins deu um título poético a um dos seus livros: River Out of Eden. Tirado de Gênese 2:10 "E saía um rio do Éden para regar o jardim, e dali se dividia". O rio do Éden de Dawkins e de DNA, e passa por todos nós

Medo de ser feliz


Vou me dedicar a mais um, talvez mais importante que os outros. É o medo da felicidade. Nada faz uma pessoa tão feliz quanto a realização amorosa. Quando estamos ao lado do amado, a sensação é de plenitude, de paz. O tempo poderia parar naquele ponto, pois todos os nossos desejos teriam sido satisfeitos…
Deixando de lado as importantes questões teóricas relacionadas à existência desse temor, podemos dizer que o medo da felicidade tem como base o receio de suafutura perda. Quanto mais contentes e realizados nos sentimos, tanto mais provável nos parece o fim desse “estado de graça”. Segundo um estranho raciocínio, as chances de ocorrerem coisas dolorosas e frustrantes aumentam muito quando estamos felizes. O perigo cresce proporcionalmente à alegria. Dessa form, à sensação de plenitude vai se acoplando o pânico.
Então o que fazemos? Afastamo-nos deliberadamente da felicidade. Cometemos bobagens de todo tipo: arrumamos um modo de magoar a pessoa amada, de inventar problemas que não existem ou exageramos a importância dos pequenos obstáculos. Escolhemos parceiros inadequados, prejudicando às vezes outras áreas importantes da vida: saúde, trabalho, finanças. Para reduzir os riscos de uma hipotética tragédia, procuramos um jeito de apagar nossa alegria. Enfim, criamos uma dor menor com o objetivo de nos proteger de uma suposta dor maior.
O medo de perder o que se alcançou existe em todos nós. Porém, gostaria de registrar com ênfase que a felicidade não aumenta nem diminui a chance de fatos negativos acontecerem. Trata-se apenas de um processo emocional muito forte, mas que não corresponde à verdade. Felicidade não atrai tragédias! É só uma impressão psíquica.
O que fazer para nos livrarmos dessa vertigem simbólica que torna a queda inevitável? Como sair do impasse e ter forças para enfrentar o amor? Só há umasaída, já que não se conhece a “cura” do medo da felicidade. É preciso diminuir o medo da dor. Assim, ganharemos coragem para lidar com situações que geram alegria e prazer. Perder o receio de sofrer é necessário até porque a felicidade poderá de fato acabar. Não tem cabimento, porém, deixar de experimentá-la, pensando apenas nessa eventualidade.
Todo indivíduo que andar a cavalo estará sujeito a cair. Só terá certeza de evitar acidentes quem nunca montou. Isso, repito, é covardia e não esperteza. Reconhecer em si forças suficientes para suportar a queda e ter energias para se reerguer mostra coragem e serenidade. Uma pessoa é forte quando sabe vencer a dor. Trata-se de um requisito básico para o sucesso em todas as áreas da vida, inclusive no amor. Ninguém gosta de sofrer, mas não é moralismo religioso dizer que superar as frustrações é a conquista mais importante para quem quer ser feliz. Você deseja a realização de seus sonhos? Então, tem de correr o risco de cair e se sentir capaz de sobreviver à dor de amor!
Flávio Gikovate

As raizes do romantismo

 

O mundo, às vezes, pode parecer um lugar assustador. Um lugar onde não conseguimos ver espaço para nossa vida. A alma, então, fica ofegante, sem ar, buscando um lugar onde o horror não seja a regra.

Esse lugar pode ser um mundo invisível, o passado, um paraíso, a pessoa desejada, ou, o que às vezes é a mesma coisa, um outro inferno, como o mundo, ainda que feito da substância dos pesadelos. Quando esse terreno encontra gênios literários, o horror pode virar beleza.

A descrição acima está muito próxima do que o filósofo judeu britânico Isaiah Berlin (século 20) pensava da Alemanha (ainda que neste momento a Alemanha não existisse como unidade política) dos séculos 17 e 18, devido as terríveis guerras religiosas entre católicos e protestantes, "a Guerra dos 30 Anos".

O resultado foi uma Alemanha devastada e reduzida à "Idade Média". Enquanto França e Inglaterra nadavam de braçada em direção à modernização burguesa industrial, os alemães se afogavam no ressentimento e na melancolia. Nascia o romantismo. Essa Alemanha foi seu o berço.

A historiografia marxista costuma dizer (com razão) que o romantismo é a primeira grande ressaca da Europa com a modernização burguesa. A tese de Berlin não nega este fato, mas ilumina elementos sutis com relação aos afetos românticos.

A modernidade é bipolar. Quando acorda bem, é iluminista, científica e progressista, assim como nós quando acordamos acreditando em nossa capacidade de produzir o sucesso material em nossas vidas.

Mas quando ela acorda mal, é romântica, ciente da hostilidade do mundo e em dúvida com relação à capacidade de sua grande criação, o iluminismo racionalista e técnico-científico. Assim como nós quando acordamos em meio a madrugada sentindo a solidão de quem investiu a vida em dinheiro, profissão e sucesso material às custas dos vínculos afetivos pouco eficazes.

Mas, se o romantismo é mal-estar com o mundo burguês, ele é também fruto do mesmo mundo burguês e sua esperança na capacidade do indivíduo criar sua própria vida e sonhar com um futuro que seja autêntico e livre de convenções limitantes. O romantismo é antes de tudo uma afetividade angustiada com um mundo que nega aos homens e mulheres sua espontaneidade. Uma espontaneidade recém-adquirida graças à liberdade moderna.

Em março e abril de 1965, Berlin deu um série de conferências na National Gallery of Art em Washington, EUA, como parte do programa conhecido como The A. W. Mellon Lectures in the Fine Arts. Estas conferências foram publicadas em 2001 com o título "The Roots of Romanticism", Princeton University Press, organizadas pelo editor da obra de Berlin, Henry Hardy. São quatro conferências imperdíveis tanto para os interessados no romantismo quanto para os interessados no pensamento do próprio Berlin.

O romantismo é um grande ataque ao iluminismo e sua fé na eficácia e na ciência da razão. Por isso, na segunda das conferências, Berlin identifica no pietismo alemão do século 17 a grande matriz romântica e não nos delírios das caminhadas do solitário Rousseau. Os pietistas eram de classe média baixa, homens de letras, que liam a mística alemã medieval, principalmente autores como o místico do século 14 Meister Eckhart.

Os petistas viam o mundo como um lugar tomado pelos horrores do mal e por isso fugiam para o campo, viviam em silêncio, estudavam, e por isso mesmo tinham uma vida interior de enorme força e violência. A vida como drama, e não como "uma agenda" (como viam os iluministas).

Em especial, o teólogo e poeta piestista J.G. Hamann (1730-1788), amigo pessoal de Immanuel Kant, lerá o conceito de "Abgrund" ekhartiano, entendido pelo medieval como "abismo sem fundo" de uma alma que se descobre feita da matéria de Deus, como sendo a realidade de uma alma obscura e misteriosa que não cabe na razão, mas que é presa num mundo que não é sua casa. O exílio no mundo é a marca deste "mago do Norte", como ficou conhecido.

O romantismo nos legou esse sentimento sem cura de que criamos um mundo no qual não nos reconhecemos
Felipe Pondé
V

Enem mostra necessidade de mudança - CORREIO BRAZILIENSE



CORREIO BRAZILIENSE - 28/11
O resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano manteve o essencial - a disparidade entre o ensino privado e o público. Escolas pagas sobressaem. Brigam entre si pelas primeiras colocações no ranking das melhores. As mantidas pelo governo ficam atrás, bem atrás. As mais bem classificadas fogem à regra geral porque estão vinculadas a instituições como universidades.
Questionado, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, lembrou o óbvio: a disparidade das condições sociais dos estudantes. Ninguém duvida de que pais aptos a arcar com altas mensalidades contam com bibliotecas em casa, assinam jornais, têm acesso a viagens, navegam nas ondas da internet. Não só. São capazes de acompanhar o aproveitamento dos filhos e oferecer-lhes reforço sempre que necessário.

Não é o caso dos frequentadores de escolas públicas. As famílias, sem lastro cultural e sem folga financeira, dependem quase exclusivamente das instituições de ensino. É aí que o Estado falha. Quando o país abriu para todos as portas da educação na década de 70 do século passado, ignorou a diferença apontada por Mercadante. Sem levar em consideração o tamanho do abismo que separava (e separa) uns e outros, atendeu os novos clientes com os recursos que atendia os antigos - membros da elite nacional.

O resultado se repete até hoje. Democratizou-se o acesso à escola sem se democratizar o saber. Rouba-se dos pobres a oportunidade mais certa de ascensão social. Em bom português: perpetua-se a disparidade que se observa desde as Capitanias Hereditárias. Na sociedade globalizada, os excluídos do conhecimento são os excluídos das boas universidades e dos bons empregos.

A avaliação constitui passo importante no processo da aprendizagem. De um lado, permite considerar acertos e erros na caminhada de crianças e jovens em direção à liberdade. De outro, oferece base para a correção de rumos. O Brasil descobriu tardiamente as vantagens do julgamento objetivo de resultados. Só na década de 90 o MEC tomou medidas concretas aptas a orientar políticas na área da educação.

É o caso do Enem. Criado em 1998, visava radiografar a qualidade da educação nacional. Hoje, além de avaliar a excelência do ensino médio, serve para dar acesso às universidades públicas. Pouco a pouco, substitui o vestibular, que se revela inadequado para selecionar os futuros estudantes do nível superior. A pergunta que se impõe é esta: com o diagnóstico repetido ano após ano, que medidas concretas o governo tomará para melhorar o desempenho das escolas públicas? A resposta passa, necessariamente, pela qualidade do professor e do material didático. Nos dois itens, o país marca passo. Até quando?