segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

rolezinho ao rolezaço - EUGÊNIO BUCCI
REVISTA ÉPOCA

Se os inventores do rolezinho se associarem aos ideólogos do blackbloquismo, melhor nem pensar


A palavra rolezinho logo entrará nos dicionários. Substantivo masculino. Modalidade de manifestação pública instantânea – inventada por adolescentes de bairros pobres de São Paulo e normalmente convocada por meio das redes sociais –, que reúne dezenas ou centenas de participantes em shopping centers para confraternizar, chamar a atenção e se divertir; um rolezinho, como um elefante, incomoda muita gente; dois rolezinhos, como dois elefantes, incomodam muito mais, podendo mesmo tirar o sossego de dirigentes de associações comerciais e de Estado, apavorados(as) diante da possibilidade de que meia dúzia de rolezinhos, ou mesmo, sejamos paranoicos, milhares de rolezinhos, atrapalhem eventos esportivos de caráter internacional, como a Copa do Mundo, por exemplo. Etimologia: do francês roulê, particípio passado de rouler (sXII roueller ‘enrolar’) (mas aqui com o sentido de “dar um rolê”, significando “dar um passeio”, i.e., “dar uma banda por aí”, se é que você me entende, mas uma banda em grupo, com a molecada pisando forte e cantando rap), de rouelle, “rodela”, do latim rotella.

O rolezinho chega como a mais forte tendência do verão, rivalizando com os protestos de junho e com os black blocs, que escaldaram a temporada de inverno. O medo das autoridades está justamente nessa aproximação. Elas temem que os insufladores de rolezinhos se aliem às figuras cavernosas do blackbloquismo, gerando um híbrido dedicado a depredar vitrine e saquear geral. Aí, aconteceria nas ruas e nos shoppings do Brasil de hoje um casamento semelhante ao que se deu dentro das cadeias nos anos 1970. Naquela época, ao menos de acordo com alguns relatos, os presos políticos ensinaram rudimentos da disciplina bolchevique aos presos comuns e deram origem a crime organizado que hoje domina os presídios, o tráfico e as milícias. Se os inventores dos rolezinhos se associarem aos ideólogos do blackbloquismo, bem, melhor nem pensar (mas as autoridades não pensam em outra coisa).

Eis aí a contradição: a folia juvenil que anima os finais de semana da juventude das periferias é um filme de terror na imaginação daqueles que são encarregados de assegurar a ordem. As duas expectativas não têm como se conciliar. Possivelmente, o pau vai comer.

Aliás, já come. Imagens de policiais fustigando garotos com seus cassetetes (que já saem de fábrica dotados de preconceito de classe) estampam fartamente o noticiário. Não vem boa coisa por aí. Os shopping centers, templos do consumo sem janela alguma, iluminados o tempo todo por luzes ubíquas, lugares em que os corpos humanos não projetam sombra, posto que a luz brota de todas as paredes, vivem dias de apreensão. Império da mercadoria em que o sol (artificial) nunca se põe, espaços de confinamento voluntário em que os internos, como os prisioneiros de solitárias, não sabem se é dia ou se é noite lá fora, correm o risco de virar ringues dessa coisa disgusting e fora de moda que é a luta de classes. De um lado, a garotada que mal completou 18 anos; de outro, os brucutus da PM ou aqueles sujeitos de terno preto, treinados a dizer amém aos endinheirados e dirigir insultos (inclusive físicos) aos descapitalizados.

Diante de um simples rolezinho, a monumental empáfia das caixas-fortes do fetichismo se desfaz como fumaça. As torres inexpugnáveis, os caixotões de concreto armado, vigas de aço e vidro blindado, as fortalezas ultravigiadas que acomodam as grifes mais caras – e as mais bregas também – prometem segurança total aos clientes, mas não têm defesa contra meninos e meninas que, mesmo sem nadar em dinheiro, trafegam de cabeça erguida pelas galerias que existiriam para sentenciar sua exclusão.

Nesse ponto, a contradição vira fratura exposta. A menos que passem a cobrar ingresso na porta – R$ 50 por cabeça, que tal? –, os shoppings não têm como impedir legalmente a entrada de ninguém. Se, de uma hora para outra, as multidões que não compram naquelas lojas (supostamente chiques) resolvessem desfilar entre as vitrines, o ritual do consumo ficaria inviável. A clientela fugiria. As vendedoras baixariam as portas dos estabelecimentos. Os ricos teriam vergonha de comprar e os lojistas não teriam coragem de vender.

Por aí a gente entende: os shopping centers são como são, tão fechados, fortificados, ilhados, para segregar e, principalmente, para se esconder. Se os rolezinhos virarem um imenso rolezaço, muitos biombos virão abaixo. O temor das autoridades não é de todo infundado.

Eu acho que... - FÁBIO PORCHAT

O Estado de S.Paulo - 19/01

Como é difícil dar uma opinião. Tem aqueles que discordam, tem aqueles que concordam. Tem aqueles que veem na sua opinião um crítica que você mesmo não viu. Tem aqueles que têm certeza de que você é de esquerda e aqueles que afirmam categoricamente que você é direitista.

Tem aqueles que dizem que você é um alienado, que você é muito jovem, que você é branco, que você não é pobre, que você é um merda, que você é preciso em suas observações, tem aqueles que entendem tudo errado, tem aqueles que fazem uma análise completa de uma frase apenas, desvalidando todo o resto. Tem aqueles que acham que você não devia estar fazendo aquilo, tem aqueles que acham que você é uma revelação.

Tem aqueles que conseguem ver algo tão por trás daquilo que tem certeza que o que você está dizendo é exatamente o oposto daquilo tudo. E as pessoas acham tudo isso de uma só opinião. Há algumas semanas, eu disse aqui que eu acho que o Brasil dará conta da Copa do Mundo. Muita gente me disse que o Brasil é um país muito carente em educação e saúde. Eu tenho certeza disso. É um absurdo o que fazemos com nossas crianças e enfermos. Mas isso não invalida o fato de podermos realizar muito bem uma Copa do Mundo.

Ah, mas aqui a polícia é corrupta e os políticos roubam. Sem dúvida. E eu nunca afirmei o contrário. É que parece que se você disser que alguma coisa vai bem por aqui, as coisas que não vão bem invalidam tudo. Não é verdade. Se eu digo que o Brasil oferece gratuitamente o "coquetel" de tratamento de aids para a população, e isso é bom, você não pode contra-argumentar que o ensino fundamental é péssimo. Isso não é um contra-argumento, isso é outra informação.

Uma coisa é uma coisa a outra coisa é outra coisa. Sim, o ensino fundamental no Brasil é de péssima qualidade, mas o "coquetel" gratuito é uma coisa excelente. E eu não tô nem aí se o responsável por isso foi o Serra ou se o Quércia muito antes já havia sugerido isso para o Ulisses. Se o Lula propôs ao Jânio que levou até o Itamar. O que importa é que isso existe, é positivo e não pode ser anulado por conta de um dado ruim.

Me parece que está implícito pra qualquer cidadão brasileiro que o Brasil é um país de terceiro mundo, com vários problemas graves em todas as áreas e que nenhum governo consegue sanar isso. Temos sempre que expor nossos problemas e não mascará-los, justamente para corrigi-los.

Não acho que temos que só falar das coisas boas, mas temos que falar delas também. É muito bom morar no Brasil sim. O Brasil tem os problemas dele, como todos os outros países também têm. De terceiro e de primeiro mundo. Mas não podemos deixar as coisas ruins do nosso país anularem as coisas boas (que são muitas). Nem podemos deixar que as coisas boas dos outros países também anulem as coisas boas do nosso. Sempre vai ter alguém pior e alguém melhor.

Eu gosto de morar no Brasil apesar do Brasil e por causa dele, principalmente. Enfim, essa é só a minha opinião.



 

Flávio Gikovate
SEXO E AMOR SÃO COISAS DIFERENTES
O fato de o sexo e de o amor andarem juntos em um grande número de ocasiões não significa que sejam a mesma coisa. Tampouco significa que sejam manifestações distintas de um mesmo instinto – termo usado para designar impulsos que nascem espontaneamente dentro de nós Esta última idéia foi defendida por Freud, o genial médico de Viena que, no inicio do século XX lançou as bases de uma nova ciência, à qual denominou psicanálise.
A idéia de que sexo e amor sejam a mesma coisa causou grande confusão na época em que foi lançada, sendo responsável por grande parte da oposição inicial que a psicanálise sofreu. Dizer, por exemplo, que um menino de 7 anos sente desejo sexual por sua mãe pareceu chocante e, ao mesmo tempo, duvidoso. Atualmente, ninguém duvida que um menino dessa idade é extremamente ligado sentimentalmente a sua mãe. É bom que se saiba, também, que a confusão era generalizada na maneira de pensar das pessoas daquela época; é exemplo disso a atitude que os pais tinham com seus filhos do sexo masculino: não os beijavam e nem eram muito carinhosos com eles por medo de estarem contaminando-os com desejos homossexuais. Essa atitude só começou a se modificar de uns trinta anos para cá, quando as pessoas passaram a perceber que ternura é bastante diferente de tesão.
Eu costumo fazer a seguinte comparação: sexo e amor são como arroz e feijão – andam juntos com freqüência, combinam muito bem, mas são coisas bem diferentes. O amor é um desejo forte que temos por aconchego. O amor busca a sensação de paz e harmonia que sentimos quando estamos junto de uma pessoa muito especial que “elegemos” como o nosso ser amado. Nos primeiros anos de vida, esse objeto do amor é a própria mãe. Com o passar dos anos, nos desligamos dela e buscamos outra pessoa para ser o nosso par na aventura romântica. Uma vez escolhido, só serve aquele parceiro. Sua substituição é possível, mas lenta e dolorosa.
O sexo é um impulso que se manifesta pela primeira vez no fim do primeiro ano de vida. É o momento em que a criança começa a perceber com mais clareza que não está “grudada” na sua mãe, que não é uma parte dela. Começa a perceber a sua individualidade, e passa a pesquisar-se. É o período em que a criança, ao se tocar inteira, percebe que as sensações variam conforme a parte do corpo que é tocada. Percebe bem claramente que a região correspondente aos órgãos genitais provoca uma sensação muito especial, uma inquietação agradável, à qual chamamos de excitação sexual. É muito importante perceber que as primeiras sensações de natureza sexual se dão quando a criança, sozinha, está pesquisando o seu corpo. Trata-se, pois, de um fenômeno pessoal, individual, e que foi denominado “auto-erótico” por essa razão. Diferentemente do amor, que sempre envolve outra pessoa, o sexo é, nas primeiras descobertas infantis, uma manifestação individual.
Eu costumo fazer a seguinte comparação: sexo e amor são como arroz e feijão – andam juntos com freqüência, combinam muito bem, mas são coisas bem diferentes.
Podemos dizer, portanto, que existem duas grandes diferenças entre o fenômeno amoroso e o sexual. A primeira diferença é que o amor é paz e harmonia, ao passo que o sexo é excitação, tensão. A segunda diferença é que a paz derivada do amor depende sempre da existência de uma outra pessoa, o objeto específico do nosso sentimento; por sua vez, o sexo é um processo pessoal, auto-erótico e, ao menos na infância, totalmente independente de um objeto específico.
Na vida adulta, o sexo e o amor com freqüência andam juntos. Quando isso acontece, é claro que a pessoa que é objeto do nosso amor tende a se transformar naquela criatura com a qual queremos trocar carícias eróticas. A separação entre amor e sexo torna-se difícil de ser observada, derivando dai as confusões feitas pelos primeiros pesquisadores dos fenômenos psíquicos, tão essenciais ao entendimento de nós mesmos

domingo, janeiro 19, 2014

Cartilhas - LUIS FERNANDO VERISSIMO

O ESTADÃO - 19/01

À ANTIGA: Eva viu a uva. O vovô viu a Eva

MODERNA: O vovô viu Eva vendo a uva.

PÓS-MODERNA: Eva viu a uva vendo o vovô.

CAPITALISTA: Eva vendeu a uva ao vovô.

SOCIALISTA: Eva e o vovô dividiram a uva.

COMPETITIVA: Eva viu a uva primeiro, o vovô ficou sem uva.

SOCIAL-DEMOCRATA: Eva e o vovô acabariam dividindo a uva, mas só depois de um longo processo de conscientização, sem recorrer à violência.

TRÁGICA: Eva tirou a uva da boca do vovô à força e depois engasgou-se com ela, enquanto o vovô tinha um ataque cardíaco.

ERÓTICA: Eva chupou a uva fazendo “mmmm” enquanto o vovô fingia que não via.

AMERICANIZADA: Eva viu the book on the table enquanto o vovô recebia o delivery da uva.

FILOSÓFICA: Eva viu a uva, logo existe. O vovô viu Eva vendo a uva, mas não pode dizer com certeza que viu mesmo Eva vendo a uva ou apenas uma projeção conceitualizada da sua imagem no seu sistema neurológico, o que não comprovaria sua existência.

NOIR: Eva pressentiu a presença da uva na escuridão, mas antes que pudesse virar-se e vê-la sentiu a ponta de uma arma nas suas costas e ouviu a voz do vovô dizendo: “Esta é minha, baby”.

SURREALISTA: Eva ouviu a vulva do vovô.

CULINÁRIA: Eva viu a uva, cortou a uva em pedaços, botou no molho do peixe junto com alcaparras e vinho branco – e o vovô só olhando.

SIMBÓLICA: Eva ver a uva significa a reiteração de um ato de conhecimento do mundo que está na origem da cultura humana. Eva, a primeira da sua espécie; uva, a coisa a ser entendida, a realidade extra espécie que, inaugurando a relação gente/mundo, é precondição para o desenvolvimento das artes fabris e da agricultura e, portanto, da civilização. Já o simbolismo do vovô não é tão claro.

TEATRAL:

Eva – Oba, uma uva.

Vovô – Cuidado.

Eva – Por quê?

Vovô – Você sabe, os agrotóxicos.

Eva –Ora vovô, fazer um drama só por causa de...

Vovô – Não. Conheço gente que comeu uma uva e morreu na hora. Uma uva pode ser tão mortal quanto os punhais que abateram Cesar, na peça de Shakespeare.

Eva – Não vou comer. Só vou olhar.

Vovô – Citando de novo o bardo: também nos envenenamos pelos olhos.

Eva – Shakespeare disse isso?

Vovô – Não sei, mas soa como dele.

Eva – De qualquer jeito, não vou comer.

Vovô – Vou ficar de olho em você, menina.

APOCALÍPTICA: Eva verá a uva, o vovô verá a Eva, e este será o último acontecimento na História do mundo antes de começar a chover enxofre

Topless - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 19/01

Nos primeiros dias do ano foi organizada uma manifestação no Rio de Janeiro a favor do topless, mas, para desapontamento geral, teve adesão de algumas poucas gatas pingadas e o assunto não evoluiu.

Brasil, país da liberalidade, do Carnaval, das popozudas, das mulheres-fruta, da globeleza, do fio dental e demais manifestações de culto ao corpo (sem que nada disso altere a paz familiar), proíbe o topless na beira da praia. Um contrassenso? É, mas explica-se.

O Brasil é permissivo quando o assunto é sexo. De letras de música a comerciais de tevê, aqui quase tudo tem apelo erótico e tudo bem, aceitamos a lascívia como traço de caráter. Seios de fora é uma representação da nossa identidade, da nossa latinidade, das nossas raízes – desde que associada, de forma sutil ou não, à malandragem, à sacanagem, à libido. Por incrível que pareça, é mais chocante ver uma mulher amamentando seu bebê dentro de um ônibus do que arregaçando a camiseta e mostrando os peitos em frente às câmeras num estádio de futebol. Esta será candidata à musa. Ela pode. Mas o gesto maternal sugere indecência.

A amamentação em lugares públicos não é uma atitude sexual, portanto, é algo que perturba, que está fora do nosso contexto. Com o topless se dá o mesmo. Uma mulher com os seios de fora à luz do dia, em volta dos filhos, tomando mate gelado? É atentado ao pudor.

Topless não é um ato de exibicionismo, e sim uma atitude naturalista. Na Europa, basta despontar o primeiro raio de sol para a população tirar a roupa, inclusive nos parques. Em Munique, homens e mulheres dos oito aos 80 anos se reúnem no Englischer Garten, tiram toda a roupa – toda – e ficam lendo seu livrinho numa boa, com a pureza de um recém-nascido. Ninguém sai batendo fotos, salivando com cara de tarado ou marcando encontros atrás da moita. Desde a loira escultural até a senhora pelancuda, todos têm sua privacidade respeitada.

À beira mar o topless é ainda mais comum. Muitas mulheres dispensam o sutiã, não importa o estado de conservação de suas mamas. Fazem isso porque é mais confortável e também para ganhar um bronzeado uniforme, sem as marcas do biquíni. Particularmente, acho mais bonito usar as duas peças, mas não é de estética que se está falando. É do direito que uma pessoa tem de vestir-se (ou, no caso, despir-se) como bem entender, desde que num ambiente propício e sem agredir quem está a sua volta.

Aqui, na novela das nove, homens disputam para ver o “bigodinho” (depilação da virilha) de uma colega de trabalho, e o povo acha a maior graça, mas topless é perversão. Dançamos na boquinha da garrafa, mas não toleramos a liberdade de costumes. E como não se muda a mentalidade de um país por decreto, fazer topless sem estardalhaço ficará para uma próxima encarnação

Para além da inveja do tênis - RENATO JANINE RIBEIRO

VALOR ECONÔMICO - 20/01
Na década de 1990, um sintoma aterrorizou o país: cresciam relatos de meninos que agrediam ou até matavam outros, um pouco mais ricos, para roubar um par de tênis de grife, no que parecia ser o paradigma do crime por motivo fútil. Cunhei a expressão "inveja do tênis", para explicar por que algo tão supérfluo, vaidoso ou vão quanto um item de conforto pode mobilizar paixões que a luta por grandes necessidades da vida nem sempre desperta. Sustentei que as "causas nobres", como a educação, a saúde, a segurança, o transporte, o emprego, não conseguiam gerar o investimento psicológico que um artigo de grife suscita. O caso dos rolezinhos traz de novo à tona esse tema, mas numa chave bem diferente.

Lembremos as manifestações de 2013. Em julho de 2011, Juan Arias, que há anos cobre com competência para o jornal espanhol "El país" o que acontece no Brasil, lamentava: por que investimos tanta energia na Parada Gay - que hoje, em São Paulo, rivaliza com o carnaval carioca em mobilização de libido - e não depositamos sequer uma parcela disso na luta por questões prementes, como poderiam ser as que mencionei acima? Pois as manifestações de maio e junho de 2013 devem ter realizado alguns sonhos do correspondente espanhol. Elas marcaram uma grande novidade em nosso país, com multidões indo às ruas para traduzir suas carências, suas necessidades, em direitos, em exigências, em política. Ponto para o Brasil.

Já os rolezinhos parecem voltar à lógica do tênis. O que os jovens pobres vão fazer nos shoppings é clamar por sua integração na sociedade de consumo. Querem, como todos os de sua idade, desfrutar do prazer. Há um charme nisso, que inclui o uso do verbo "pegar" (que na sua polissemia herda o lugar de outra palavra ambígua, que os mais velhos não entendiam, o "ficar" de dez anos atrás) nas convocações que circulam no Face. Mas algumas grandes mudanças precisam ser apontadas - e celebradas.

Primeira: os rolês não são ações individuais, mas coletivas. A ação coletiva tem mais chances de construir o futuro, de mudar o mundo. Segunda: as convocações claramente repudiam o crime. Os rolês são chamados para serem atos não-violentos.

Recomendo o fascinante filme "O mordomo da Casa Branca" (2013), que mostra décadas de Preconceito Racial vistos por um mordomo que serve a sucessivos presidentes dos Estados Unidos. Destaco uma cena. Em 1960, vários jovens negros entram numa lanchonete do Sul, sentam-se do lado proibido para os "de cor" e pedem para serem atendidos. Não o são. Acabam espancados por brancos da elite local. O pedido - educadíssimo, sem violência alguma - para "ser atendido" num lugar em que eles não são bem-vindos aproxima o caso norte-americano do brasileiro. Uma diferença é que no Brasil a segregação não é legal - mas mesmo assim existe. Outra é que nossos jovens pobres estão indo aos shoppings para rir, brincar, ocupar o espaço com sua alegria.

Daí, terceira característica: os rolezinhos são atos políticos. Com ou sem consciência disso, os participantes se reúnem - em vez de atuar sozinhos - para exigir direitos. É incrível o poder da união. Longe do que o pensamento mais conservador teme, unir forças não leva ao crime, mas afasta dele. Soluções individuais, para problemas coletivos, são as piores. São elas que levam alguns a roubar, sonegar, fraudar para resolver um problema que não é apenas deles. Já, quando a solução se torna coletiva, pode até haver a opção quadrilha; mas esta é sempre limitada: a união de bandidos não resolve problemas sociais, apenas melhora a vida de parte deles. Quando se ganha escala numa mobilização, a tendência é reivindicar soluções para todos. Não há dúvida de que a escala, como o elefante da cantiga, incomoda muita gente. Mas é esse incômodo que coloca as questões na agenda política.

Tenho plena compreensão do medo que muitos sentem quando veem entrar uma multidão de desconhecidos no shopping. Posso me colocar no lugar deles. Mas o ser humano é dotado de razão. Não pode pensar com base só no medo. A questão não é mais, apenas, a desigualdade social clamorosa, a intensa exclusão dos mais pobres, aquilo que Cristovam Buarque chama há décadas de "apartheid social". Até aí, trata-se de fatos da realidade. A questão é que, desde a democratização de 1985, essa desigualdade foi-se tornando injustificável e intolerável. Amélia, "que achava bonito não ter o que comer" (1942), é hoje apenas um verso do passado. O playboy brasileiro da opereta "La vie parisienne" (1866), ladrão e corrupto no país, homem fino na Europa, não faz mais rir. Pobres, negros, mulheres, indígenas e gays querem a plenitude de direitos, já. Passou o tempo de qualquer discurso que lhes peça paciência. Eles não acreditam mais em promessas para o futuro. Por isso é tão significativo que a bola da vez sejam os rolês. Se há algo que caracteriza o prazer, é sua imediatez. Quer-se prazer já, não daqui a dez anos. A diversão que não rolar hoje, não é a mesma que poderá rolar sábado que vem - menos ainda, quando estiverem casados, empregados, com filhos.

Um mundo acabou. Durante décadas, nos protegemos dele atrás de grades - no prédio ou no shopping, ou as grades simbólicas da escola, do hospital e do carro melhores. Isso não tem mais como durar. A boa nova é que a exigência de que isso mude, seja em junho de 2013, seja em janeiro de 2014, tem-se feito dentro da lei e com nenhuma ou pouquíssima violência. Mas o tempo urge. A brincadeira de injustiça social terminou. Quem quiser continuar jogando esse jogo só vai gerar problemas - para si e para os outros.

Dois pesos e duas madidas

 - LUIZ FELIPE PONDÉ
FOLHA DE SP - 20/01

Por qual razão seria incorreto fazer piadas sobre negros e gays, mas não sobre o cristianismo?


Não sou religioso, só frequento templos vazios. Tampouco considero o ateísmo prova de maior inteligência ou coragem intelectual. Dias atrás, nesta coluna, ataquei as dimensões picaretas das religiões.

Por que digo isso? Porque hoje em dia, em épocas de exigências de pureza ideológica (no mundo da cultura vivemos um fascismo descarado dos bonzinhos, baseado em difamação de quem não frequenta as ideias que eles frequentam), se faz necessário apresentar algumas "credenciais" quando se vai tratar de um assunto delicado que pode ofender a sensibilidade totalitária dos bonzinhos. Quando ofendidos, os bonzinhos passam à gritaria, principalmente nessa masmorra escura que são as redes sociais.

Apesar de não ser religioso, conheço o suficiente de algumas religiões para saber que muitas delas carregam um saber de valor inestimável, fato este que escapa a muitos dos críticos banais das religiões. Você identifica um ignorante quando ele diz que a Bíblia é um livro opressor.

Dito isso, vamos ao que interessa. Há alguns anos, um cartunista dinamarquês passou por poucas e boas quando fez piadas com Maomé. Lembro-me de muitos dos bonzinhos defenderem o direito dos muçulmanos de se ofenderem com a piada e jogarem a atitude do cartunista no saco indiferenciado do preconceito ocidental contra o Islã.

Fico feliz que no Brasil ainda se possa fazer humor com as religiões e que quem faz piada com Jesus (que acho um cabra-macho, mas não acho que seja Deus) possa fazê-lo, ganhar dinheiro com isso e não ser ameaçado de morte. Ou, quem sabe, perder o emprego. Pedir a cabeça de alguém é um pedido comum dos bonzinhos quando leem algo com que não concordam.

Acho que o humor deve ser livre porque ele é uma das dimensões por meio das quais o espírito humano sobrevive, se alimenta e reflete sobre sua condição. Não partilho da ideia de que o humor seja uma forma menor de cultura. Por isso, discordo da tentativa de qualquer grupo, religioso ou não, de querer barrar ou processar quem quer que seja por ter feito piada do que for.

Mas me pergunto uma coisa: por que alguns acham politicamente incorreto fazer piadas com negros, índios, gays e nordestinos (e julgam justificados processos legais contra quem faz tal tipo de piada), mas julgam correto fazer piada com os ícones do cristianismo?

Claro, quem pratica esse tipo de critério, com dois pesos e duas medidas, é gente boazinha e com opiniões corretas. Defendem a própria liberdade, mas negam imediatamente a liberdade de quem os aborrece. O nome disso é incoerência. A democracia só vale para quem nos irrita, mas os bonzinhos não pensam assim.

Não me surpreende a incoerência dos bonzinhos, porque o que faz alguém ser bonzinho hoje é a falta de caráter. Ser do "partido dos bonzinhos" hoje dá dinheiro, ganha editais, cargos no governo, fotos em colunas sociais, convites e prêmios culturais. Identificar um bonzinho hoje em dia como resistente ao poder é uma piada e tanto! Eles estão no poder até no RH das empresas e na magistratura.

Os cristãos têm todo o direito de ficar bravos com as piadas com Jesus (que aliás, costumam ser ótimas). Mas, acho "engraçado" (já que estamos falando de humor) alguém não perceber que vivemos num mundo em que tirar sarro de cristão pode, mas de outros grupos não. Por quê?

Fácil: porque ninguém precisa ter "cojones" para tirar sarro de cristão. No mundo da cultura, falar mal de religião (menos da indígena, afro e budista) é bater em bêbado na ladeira.

Proposta: que tal tirar sarro das pautas dos bonzinhos? Tipo fazer piada com as "jornadas de junho". Ou da moçadinha que quer salvar o Ártico. Ou de gente que vive falando mal da polícia, mas treme de medo e chama a polícia logo que sente sua propriedade privada em risco. Ou do movimento estudantil. Ou de intelectual que glamoriza os "rolezinhos". Ou das feministas. Ou de ateus militantes. Ou do exército da salvação PSOL e PSTU. Ou de quem diz que bandidos são vítimas sociais.

É isso aí: que tal fazer piadas com os preconceitos dos bonzinhos? Missão impossível