segunda-feira, 27 de janeiro de 2014


Palavras e segurança - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 27/01
"De boas intenções o inferno está cheio", diz a sabedoria popular. No Brasil, o dito exige adaptação. "De palavras", diria o texto com ajustes, "o cidadão está cheio". Expressam-se, aí, duas caraterísticas que marcam os governantes. Uma: a paixão incontrolada pelo discurso. Fala-se muito. Faz-se pouco. A outra: a crença no poder mágico da língua. Com fé inabalável na força da palavra, jorram-se promessas como se, sozinhas, elas fossem capazes de resolver problemas e responder a desafios.
O manual de repressão padrão Fifa confirma a tendência inelutável de acreditar na potência sobrenatural da falação. Trata-se de cartilha de procedimentos a ser seguidos durante grandes manifestações e a Copa do Mundo. Destinado à PM, o texto autoriza o uso de armas não letais e cria centros de comando distantes das áreas de conflito. Em casos de transgressão à lei, a polícia tem de identificar a responsabilidade individual do infrator. Hoje, prende-se coletivamente antes e pergunta-se depois.

Não é sem motivo a preocupação com a segurança pública. A escalada da violência, sobretudo nas grandes cidades, tem afetado a rotina dos cidadãos - obrigados a se proteger atrás de grades e ameaçados no direito de ir e vir. A internet promove fenômeno novo. Capaz de mobilizar grandes massas num tocar de teclas, o poder da rede mundial surpreendeu as autoridades em junho passado ao convocar o povo a manifestar a contrariedade em ruas e avenidas.

Os rolezinhos, acontecimentos mais recentes concentrados em shopping centers, confirmam a necessidade de forças policiais treinadas - aptas a manter a lei e a ordem com técnica e civilidade. Polícia não se qualifica com cartilhas, mas com estudo e treinamento. A segurança pública figura no rol das especialidades com alto grau de sofisticação. Tecnologia e inteligência devem andar de mãos dadas para fazer frente aos desafios contemporâneos, bem mais refinados que os do passado.

Estão na memória dos brasileiros discursos e entrevistas das autoridades sempre que ocorre uma grande tragédia. Os responsáveis pelo setor apresentam planos, fazem promessas e juram que, dali para a frente, a realidade será outra. Apagada a emoção, porém, fica tudo como está. A novela se repete quando exigida por outra comoção. E assim sucessivamente.

Agora, porém, a situação se agrava a ritmo de internet. Além das manifestações que tomam ruas e shoppings, a polícia tem de estar preparada para enfrentar o crime organizado. Como o adjetivo denuncia, a bandidagem saiu na frente em estratégias, inteligência e investimentos em inovação. Palavras, portanto, não são suficientes para mudar paradigmas. Sem ação efetiva, manuais e cartilhas servem para inglês ver. Nem se pode dizer que as frases ali contidas entrarão por um ouvido e sairão por outro. Elas nem sequer entrarão.

domingo, janeiro 26, 2014

Realidade e percepção - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 26/01

Quando se diz que uma imagem vale mais do que mil palavras, logo pensamos em cenas e fotografias que não carecem de explicação: a força de sua mensagem dispensa legendas. Mas imagem não é apenas algo que se enxerga concretamente.

Quando vi a foto do caixão de Ronald Biggs coberto pela nossa bandeira, sabia que aquilo significava apenas uma homenagem do filho brasileiro que o ladrão inglês teve, mas, subliminarmente, a imagem também fazia uma associação indigesta entre o banditismo e as cores verde e amarelo. Essa imagem negativa que temos do nosso país não é gratuita. Por maior que seja a quantidade de brasileiros honestos, incluindo até alguns políticos, não adianta: o Brasil tem um histórico de corrupção e violência que induz a essa percepção.

Percepção é algo que se constrói dia após dia, fato após fato, e que uma vez consagrada, é difícil mudar. Mesmo que todos os trens da Inglaterra partam e cheguem com atraso nos próximos meses, será preciso anos para desfazer a imagem que aquele país tem de pontual. O contrário também acontece. Ronald Biggs, depois que fugiu para o Brasil, não roubava mais nem no troco, era apenas um aventureiro que se transformou em uma folclórica subcelebridade. O episódio do assalto ao trem pagador, cinco décadas antes, foi deixado de lado em prol da construção de uma imagem de anti-herói, e ele acabou sendo enterrado com cobertura da imprensa.

Poucas coisas são tão fortes quanto a imagem que a gente cria. E como todos gostam de saber com quem estão lidando para evitar surpresas, essa imagem vira referência e pode agir a nosso favor e também contra - preconceitos vêm daí.

Nem todo alemão é sisudo, nem todo baiano é preguiçoso, nem todo gaúcho é machista, mas essa é a “foto” que guardamos deles em nossos porta-retratos mentais. Estereótipos de grupo. Individualmente acontece a mesma coisa. A sua vida passa como se estivesse numa esteira de linha de produção, até que um dia você ganha um rótulo – que não veio do nada, você de certa forma colaborou para ser etiquetado como um fofoqueiro, um bebum, um mulherengo.

E também colaborou para ser reconhecido como um cara focado, um homem responsável, um sujeito que cumpre o que promete. Você pode mudar? Pode. Para melhor e para pior. A vida é longa. Angelina Jolie passou de bad girl a cidadã ativista e de família - adotou crianças, visitou países assolados pela fome, a nossos olhos virou outra pessoa.

Mas, para comuns mortais, é bem mais penoso reverter a própria imagem. A imprensa não cobre.

Rótulos, mesmo os bons, são limitadores. O ideal seria que pudessem esperar qualquer coisa de nós, já que somos mesmo capazes de surpreender. Mas o mundo se apega às certezas, não às dúvidas. Então, tenha em mente que tudo o que você faz (e principalmente o que você repete) ficará arquivado na memória daqueles com quem convive, e será um trabalhão desfazer essa imagem. Não que seja impossível, mas vai exigir mais do que mil palavras.


Mendigo do amor - FABRÍCIO CARPINEJAR

ZERO HORA - 26/01

Até que ponto é possível amar sem ser amado?

Quando amamos platonicamente, o amor pode durar muito tempo. Pois não tem ninguém para estragar nossa idealização. Não há convivência para nos desafiar. É uma paixão estanque, feita de sonho e névoa. É uma vontade desligada da realidade. Temos a expectativa intacta, longe de contratempos. Acordamos e dormimos com o mesmo sentimento, longe de interrupção em nossa fantasia.

Mas quando amamos dentro de um casamento e quem nos acompanha não retribui o amor? Quanto tempo dura? Quanto tempo você suporta a secura, o desaforo, a grosseria? Quantos meses, se cada dia é um ano?

Nem estou falando de falta de sexo, mas a falta de beijo, de abraço, da telepatia rumorosa, do colo, de perceber seus cabelos sendo penteados pelas mãos, de ver seu rosto encarado de forma única e brilhante. Nem estou falando da falta de aventura, mas do conforto protetor, da cumplicidade, do afago que é viver com a certeza de que é admirado. Nem estou falando da falta de viagens, mas do mínimo da rotina apaixonada, ser cuidado mesmo quando está distraído. Não estou falando de arroubos e arrebatamentos, mas da vontade boa de morder seus lábios levemente quando suspira e de esperar o final de semana como um feriado.

Quanto tempo dura o amor sem retorno, sem reconhecimento?

Talvez pouco, quase nada. Quem não se sente amado não é capaz de amar. Não é problema de carência, é questão de tortura.

Extravia-se a cintilação dos olhos. Ocorre um bloqueio, uma desesperança, uma resignação violenta. É como dançar valsa sozinho, é como dançar tango sozinho. É abraçar pateticamente o invisível e não ter o outro corpo para garantir seu equilíbrio.

Você se verá um mendigo em sua própria casa, diminuído, triste, desvalorizado, esmolando ternura e atenção. Aquilo que antes parecia natural – a doação, a entrega, a alegria de falar e de se descobrir – será raro e inacessível. Todo o corredor torna-se pedágio da hostilidade. Passará a evitar os cômodos para não brigar, passará a evitar certos horários para se encontrar com sua esposa ou marido, passará a prolongar os períodos na rua, passará apenas a passar. Combaterá as discussões e gritarias anulando sua personalidade. Despovoará a sua herança, assumirá o condomínio do deslugar. Comerá de pé para evitar o silêncio insuportável entre os dois.

Quer um maior mendigo do que aquele que dorme no sofá em sua residência? Com um cobertorzinho emprestado e com a claridade das janelas violentando os segredos?

Por ausência de gentileza, perdemos romances. O que todos desejam é alguém que diga: não vou desperdiçar a chance de lhe amar. Alguém que não canse das promessas, que não sucumba ao egoísmo do pensamento, que tenha mais necessidade do que razão.

A gentileza é tão fácil. É fazer uma comida de surpresa, é convidar a um cinema de imprevisto, é pedir uma conversa séria para apenas se declarar, é comprar uma lembrancinha, é chamar para um banho junto, é oferecer massagem nos pés, é perguntar se está bem e se precisa de alguma coisa, é tentar diminuir a preocupação do outro com frases de incentivo.

Quando o amor para de um dos lados, o relógio intelectual morre. Não se vive desprovido de gentileza. A gentileza é o amor em movimento
Amor e ódio à classe média - GUSTAVO PATU
FOLHA DE SP - 27/01

BRASÍLIA - "Eu quero que todos sejam classe média. Porque o que a classe média tem de benefícios, de casa, de educação, de saúde, de emprego, de salário, de poder almoçar num restaurante uma vez por mês, de poder tomar uma cervejinha no final do expediente... Todo mundo é filho de Deus e todo mundo tem direito às coisas boas deste país."

Assim falava Lula na campanha de 1989, quando sua barba preta e sua promessa de socialismo democrático ainda metiam medo --e não apenas em quem podia almoçar fora de casa mais de uma vez por mês.

Quase 25 anos depois, a expansão da classe média é o que de melhor a administração petista tem para mostrar ao mundo rico, como neste mais recente Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça. Pelas contas oficiais, dois terços dos brasileiros já estão na classe média; segundo o Itaú, serão três quartos até 2016.

É claro que sempre haverá muito a questionar nos critérios para demarcar quem é pobre, rico ou remediado. As estatísticas do governo encaixam na classe média uma mãe solteira de um filho, trabalhando como empregada doméstica por um salário mínimo. A grande maioria dos considerados de classe alta certamente se considera classe média.

No debate de Davos, segundo o relato de Clóvis Rossi, da Folha, o ministro Marcelo Neri, de Assuntos Estratégicos, brincou com uma definição americana segundo a qual classe média é quem possui dois cachorros, dois carros e uma piscina.

Historicamente, a turma da cervejinha e da piscina sempre foi uma pedra no sapato do pensamento de esquerda. Marx descreveu a classe média como reacionária e fadada à extinção num mundo dividido entre exploradores e explorados.

"Eu odeio a classe média", como disse sem rodeios a filósofa petista Marilena Chaui. Contrariando a profecia marxista, os pequenos burgueses se expandem e levam o governo ao centro e Dilma Rousseff à Suíça.
Disco ocupado - RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 27/01

RIO DE JANEIRO - Na próxima vez que você esquecer o nome do seu neto, não tiver certeza se já tomou banho ou não se lembrar por que saiu de casa com um envelope endereçado e fechado contendo uma carta, não se desespere. Pode não ser --ainda-- a chegada do velho Al (Al Zheimer, conhece?) ou de alguma outra forma de demência senil. Estudos recentes de cientistas alemães indicam o contrário: quem mais esquece é o homem que sabe demais.

Segundo eles, o cérebro do idoso, se não reage de pronto a certas solicitações, não é porque esteja com as porcas e arruelas enferrujadas ou sendo apagado aos poucos como um quadro-negro. É porque levou décadas armazenando informações. E, por ele conter gigantescos blocos de informações, mais complexa e lenta será a busca entre elas de informações novas. É como o disco rígido do computador que, por estar "cheio", demora mais para processar os dados.

Essa não é uma imagem, mas um diagnóstico. Os alemães simularam em computador o desempenho de bancos de dados maiores e menores --esses últimos, equivalentes ao cérebro de um jovem adulto-- e constataram que a diferença não estava no desgaste do material, aliás inexistente, e sim na carga de dados.

Gostei dessa descoberta, mas eu próprio já havia chegado a ela sem precisar de simulações. Há tempos venho percebendo que minha lentidão para gravar certas informações se dá porque o espaço na cabeça está ocupado com detalhes da trama de romances como "Scaramouche", "O Pimpinela Escarlate" e "Elzira, a Morta-Virgem", gibis de Mandrake, Dick Tracy e Brucutu, cenas de beijo de filmes de Marisa Allasio, frases do Millôr, tratados de fenomenologia de Husserl e letras de marchinhas de Carnaval como "Aurora", "Saçaricando" e "Tem Nego Bebo Aí".

Não que as ditas informações novas merecessem ocupar o lugar dessas maravilhas.

Euzinho - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 27/01

Tradição nada tem a ver com se pintar como aborígenes pra defender reservas indígenas


A modernidade é uma declaração de guerra à ideia de tradição. Mas nós, modernos, continuamos a não perceber isso, e o resultado é que suspiramos como bobos diante do que pensamos ser uma tradição, apesar de detestarmos qualquer sinal verdadeiro de tradição.

Procuramos tradições em workshops xamânicos, espaços budistas nas Perdizes, livros baratos sobre como viviam os druidas.

São muitas as definições de tradição. Não vou dar mais uma, mas sim elencar atitudes que estão muito mais próximas do que é uma tradição do que cursos de cabala nos Jardins. Nada tenho contra estudar culturas antigas, apenas julgo um equívoco confundir a ideia de tradição com modas de uma espiritualidade de consumo.

Não existe xamã na Vila Madalena. A cabala não vai salvar meu casamento. Meditação não fará de mim uma pessoa melhor no trabalho. Imitar a alimentação de monges tibetanos não aliviará minha inveja. Frequentar cachoeiras indígenas não fará de mim uma pessoa menos consumista. Tatuar palavras védicas não me impedirá de fazer qualquer negócio pra viver mais. Visitar templos no Vietnã não fará de mim alguém menos dependente das redes sociais. Desejar isso fará de mim apenas ridículo.

Uma tradição, pra começo de conversa, nada tem a ver com "escolha". Não se escolhe uma tradição. Neste sentido, muitos rabinos têm razão em desconfiar de conversos ao judaísmo por opção. Uma tradição funciona sempre contra sua vontade, à revelia de sua consciência, submetendo-a ao imperativo que escapa à razão mais imediata. A única forma de tradição a que a maioria de nós ainda tem acesso é a língua materna.

Colocar os filhos pra dormir todos os dias é mais próximo do que é uma tradição do que estudar velhos símbolos indígenas ou brincar com eles em pousadas nas chapadas. Não poder sair à noite porque um dos filhos tem febre é tradição. Velá-lo durante a noite é tradição. Morrer de medo durante esta noite é tradição. Nada menos tradicional do que uma mulher sem filhos. Ela até pode aprender capoeira, mas será apenas iludida, se sua intenção for experimentar a tradição afro.

Nada tenho contra mulheres não terem filhos, digo apenas, de forma modesta, o que é uma tradição.

Homens que sustentam sua mulher e filhos são tradicionais, mesmo em tempos como os nossos em que todo mundo mente sobre isso. Levar seus velhos ao hospital, enterrá-los, em agonia ou com absoluta indiferença, é tradição. Andar pela casa à noite pra ver se tem algum ladrão, enquanto sua mulher e filhos ficam protegidos no quarto, é tradição. Ser obrigado a ser corajoso é uma tradição, maldita, mas é.

Pular sete ondas numa Copacabana lotada nada tem de tradicional, é apenas chato. Tradição é ir pra guerra se não sua mulher achará você covarde. Lavar louça, fazer o jantar, lavar banheiros, morrer de medo diante do médico. Falar disso pra quem vive uma situação semelhante a você. Ter que passar nas provas na escola. Ter que ser melhor do que os colegas. Sangrar todo mês.

Tradição é pagar contas, enfrentar finais de semana vazios e não desistir. É sonhar com um futuro que nunca chega. Engravidar a namorada. Ter ciúmes. Odiar Deus porque somos mortais. Ter inveja da amiga mais bonita, do amigo mais forte e inteligente. É cuidar dos netos. É educar os mais jovens e não deixar que eles acreditem nas bobagens que inventam.

Tradição funciona como hábitos que se impõem com a força de um vulcão, de um terremoto, de um tsunami, de uma febre amarela. Nada tem a ver com se pintar como aborígenes pra defender reservas indígenas ou abraçar árvores.

Evolução espiritual é um dos top em quem quer "adquirir" uma tradição. Mas esta nada tem a ver com "buscar" uma evolução espiritual como forma de fugir de filhos que têm febre ou compromissos afetivos. A evolução espiritual verdadeira é algo que nos acomete como uma disciplina aterrorizante.

Teste definitivo: você busca evolução espiritual pra aperfeiçoar seu "euzinho"? Lamento dizer que qualquer evolução espiritual (se existir) começa com você esquecer que seu euzinho existe

sábado, 25 de janeiro de 2014

Reflexão

sáb, 25/01/14
por Paulo Coelho |
 

De Antoine Saint-Exupéry, autor de “O Pequeno Príncipe”:
“No fundo, existe apenas um único problema neste mundo: como fazer com que o homem encontre de novo o sentido espiritual da vida, como provocar a nós mesmos para que retomemos o caminho que nos faz olhar nossas próprias almas.”
“Para isso, é necessário acreditar que a humanidade possa receber um banho da força luminosa que vem de cima, e que os ares sejam inundados por algo parecido com o canto gregoriano. Não podemos continuar vivendo como se o mundo se resumisse a geladeiras, políticos, orçamentos, e palavras cruzadas”.