quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Enem, 1001 utilidades - HÉLIO SCHWARTSMAN



FOLHA DE SP - 27/11

SÃO PAULO - Em 2009, o MEC reformulou o Enem, introduzindo uma nova metodologia para elaborá-lo - a TRI - e passou a utilizá-lo como um vestibular nacional para as universidades federais.

Foram mudanças importantes. A TRI, acrônimo para Teoria da Resposta ao Item, trouxe um pouco de ciência para as avaliações. Seus modelos matemáticos permitem comparar alunos submetidos a provas diferentes e o desempenho de um mesmo estudante ao longo do tempo. A unificação do processo seletivo, com o advento do Sisu, um leilão eletrônico para alocar vagas segundo o desempenho de cada candidato, permite um aproveitamento muito melhor da rede de instituições federais.

Temo, porém, que o MEC tenha ido com muita sede ao pote e tenha empurrado para o Enem mais funções do que o exame é capaz de suportar. Além do mencionado, a prova vem sendo usada para certificar a conclusão do ensino médio (a antiga madureza), para alocar bolsas do ProUni, para avaliar escolas públicas e privadas e até para decidir quem vai passar uma temporada no exterior no Ciência sem Fronteiras.

É difícil pôr no mesmo teste aquilo que é necessário para desempatar dois candidatos ultrapreparados que disputam uma vaga no curso de medicina, por exemplo, e os conhecimentos básicos que se exigem do sujeito que só quer o diploma do ensino médio. O resultado são provas ultralongas que prejudicam os estudantes pelo cansaço a que os submetem.

Pior ainda quando o mesmo exame é usado também para avaliar instituições. Aí as incompatibilidades não são apenas de nível como de filosofia. Uma coisa é medir as competências do aluno e outra muito diferente aferir a qualidade da escola, objetivo que fica ainda mais difícil quando se considera que só fazem o teste os alunos que o desejam.

Ao contrário da palha de aço, devemos desconfiar de uma prova que proclame ter 1001 utilidades.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Estranho Numa Terra Estranha - Robert Heinlein

“Se Deus existisse (assunto do qual Jubal mantinha-se neutro) e se ele queria ser adorado (coisa que Jubal considerava improvável, mas apesar de tudo possível, considerando sua própria ignorância no assunto), então parecia mais improvável ainda que um Deus capaz de moldar galáxias pudesse se satisfazer com a algazarra maluca que os fosteritas chamavam de ‘adoração’.”

“Jubal não insistiu e passou à multiplicidade das religiões humanas. Explicou que os humanos têm centenas de maneiras de aprender os ‘grandes ensinamentos’, cada uma com resposta própria e cada uma afirmando ser a verdade.”

“...cada religião afirma ser a verdade, afirma falar certo. No entanto, suas respostas são tão diferentes como duas mãos e sete mãos. Os fosteritas dizem uma coisa, os budistas outra, os mulçumanos ainda outra... inúmeras respostas, todas diferentes.”

“Havia um campo no qual o homem era imbatível. Mostrava ilimitada habilidade em inventar métodos maiores e mais eficientes de matar, escravizar, atormentar e tornar-se de mil maneiras intolerável a si mesmo. O homem era a mais sinistra piada do homem.”

“- Parabéns! O desejo de não se meter na vida alheia é oitenta por cento da sabedoria humana!”

“A religião é um conforto para muitos e é possível que a religião, em algum lugar, seja a verdade suprema. Mas ser religioso é muitas vezes uma forma de orgulho. A fé na qual fui educado garantia-me que eu era melhor que os outros: eu estava salvo e os outros estavam ‘condenados’. Nós estávamos em estado de graça e os outros eram idólatras. Por idólatras entendiam pessoas como o nosso irmão Mahmoud. Homens místicos e ignorantes, que raramente tomavam banho e que plantavam milho de acordo com a fase da lua, achavam que tinham as respostas absolutas do universo. Isso os autorizava a olhar os estranhos com arrogância. Nossos hinos eram carregados de empáfia. Congratulávamo-nos com a intimidade que tínhamos com o Todo-Poderoso e pela boa opinião que ele tinha de nós. O resto que esperasse pelo juízo final.”

“Um vigarista sabe que está mentindo. Isso limita o seu alcance. Mas um xamã bem-sucedido acredita no que está dizendo e a crença é contagiosa, não há limites à sua ação.”

“– Jubal, como é que se permite uma coisa dessas?
– Que coisa?
– Tudo. Isso não é uma igreja... é uma casa de loucos.
– Não, Jill. É uma igreja... é o ecletismo lógico da nossa época.
– Hem?
– A Nova Revelação é um troço antigo. Foster e Digby jamais tiveram uma idéia original. Reuniram uma porção de truques velhos, deram uma mão de tinta e abriram o negócio. Um negócio de sucesso. O que me preocupa é que eu talvez ainda o veja obrigatório a todos.
– Oh, não!
– Oh, sim. Hitler começou com menos e o que ele negociava era ódio. A felicidade é uma mercadoria bem mais rentável. Eu sei, estou no mesmo ramo, como Dibgy me lembrou – Jubal fez uma careta. – Deveria ter-lhe dado um soco. Em vez disso ele me fez sentir prazer. É por isso que tenho medo dele: é inteligente. Sabe o que as pessoas querem. Felicidade. O mundo passou por um século de culpa e medo e agora Digby diz-lhes que não têm nada a temer, nem nesta vida nem depois, e que Deus quer que todos sejam felizes. Ele repete dia e noite: não tenham medo, sejam felizes.”

“Se você pinta um macaco de vermelho e o joga numa gaiola de macacos marrons, estes o estraçalharão.”

“O homem foi construído de forma a não poder imaginar a própria morte. Disso resulta uma infinita invenção de religiões. Embora aquela convicção não prove de maneira alguma que a imortalidade seja um fato, as perguntas por ela geradas são extremamente importantes. A natureza da vida, como o ego está enraizado no corpo, o problema do próprio ego e porque cada ego parece ser o centro do universo, a finalidade da vida, a finalidade do universo, são perguntas essenciais, Ben. Nunca se tornarão vulgares. A ciência ainda nãos as resolveu, e quem sou eu para zombar das religiões por tentar, por menos que me convençam? (...) A única opinião religiosa da qual me sinto seguro é a seguinte: a consciência não é só o entrechocar de um punhado de aminoácidos!”

“O martírio e a perseguição são a melhor propaganda para as igrejas.”

“A bondade sem sabedoria produz sempre o mal.”

Recordar é viver - RODRIGO CONSTANTINO



O GLOBO - 26/11

O Brasil de hoje é uma sociedade invertebrada. Amorfa, passiva, sem capacidade de reação. É uma República bufa, uma República petista. Assim conclui Marco Antonio Villa em seu novo livro, Década perdida , onde disseca os dez anos de PT no poder. É um trabalho conciso de historiador, resgatando os principais acontecimentos desta triste época.

Villa optou por um relato cronológico, expondo os fatos mais marcantes de cada ano. Basta relembrar a quantidade infindável de escândalos para derrubar todos os mitos criados pelo PT, inclusive o maior deles: o de que Lula é um operário que chegou ao poder para mudar tudo e beneficiar os mais pobres.

O lulismo, ao contrário, foi um grande passo na mesma direção do que há de pior em nossa política. O patrimonialismo foi fortalecido, as oligarquias corruptas nunca tiveram tanto poder, os sindicatos jamais foram tão vendidos, o aparelhamento da máquina estatal foi total. A tudo isso, somou-se o culto à personalidade, o messianismo típico das republiquetas populistas latino-americanas.

Dispostos a tudo pelo poder, Lula e o PT abusaram das mentiras, das práticas mais nefastas na política, das alianças indigestas com os velhos picaretas acusados pelo partido, do mensalão, o maior esquema já visto para tentar controlar o Congresso e destruir a democracia.

O que Villa faz é mostrar um filme do enorme estrago causado pela passagem do PT pelo poder nessa década. Com fortes ventos favoráveis vindos de fora, basicamente pelo elevado crescimento chinês e o baixo custo do capital no mundo, o Brasil teve desempenho econômico medíocre.

Crescemos bem menos do que a média dos emergentes, e com inflação bem maior. O pouco que crescemos se deu por fatores insustentáveis, como o irresponsável endividamento do governo e das famílias, estimulado pelo próprio governo. Faltou um projeto de país, e sobrou a visão míope de se pensar apenas nas próximas eleições.

O engodo que foi o lulismo, incluindo dois anos de sua criatura Dilma, fica evidente no livro, com a quantidade absurda de promessas irreais, factoides criados somente de olho nas campanhas eleitorais. Foi a era do marqueteiro, tudo voltado às aparências, sem preocupação com resultados concretos.

O desrespeito com as instituições republicanas foi total, chegando várias vezes ao escárnio. O PT aprofundou o processo de desmoralização da política , acusa Villa. Ser amigo do rei nunca foi tão importante para o sucesso. As bases da pirâmide foram compradas com esmolas, no pior estilo coronelista, e o topo, representado pelo grande capital, teve o BNDES a seu dispor, em magnitude jamais vista.

Os artistas também se venderam pelo apoio cultural . Nada mais é realizado nesta área sem que tenha a participação estatal, criando-se uma relação de completa dependência. A esquerda caviar e o PT desenvolveram uma simbiose umbilical, destruindo qualquer chance de integridade artística na maioria dos casos.

No âmbito externo e diplomático, o lulismo também deixaria sua marca podre. O Itamaraty tem sido responsável por vexames internacionais, deixou de lado sua tradicional postura de isenção, aderindo ao bolivarianismo e se alinhando aos piores ditadores. O viés ideológico e os objetivos partidários estiveram acima dos interesses nacionais. O Mercosul é um atraso de vida, e acordos bilaterais de livre comércio não foram selados por culpa do PT.

Por trás de tudo isso, como aponta Villa, há uma oposição acovardada, tímida, incapaz de combater com determinação o avanço do lulismo. Em 2005, essa postura equivocada ficou evidente, no erro estratégico de deixar o PT sangrar com o mensalão na expectativa de derrotá-lo nas urnas. Foi um marco do vale tudo adotado por Lula. Sua vitória foi a derrota da ética, a morte da jovem República ainda em construção.

Como o autor reconhece, não será nada fácil tirar o PT do poder. Primeiro, porque muitos grupos de interesse foram capturados. O PT transformou as estatais e seus poderosos fundos de pensão em instrumentos partidários. Estabeleceu uma rede de controle e privilégios nunca vista na nossa história.

Segundo, porque boa parte da população parece não se dar conta do que é o PT, um partido que sequer respeita seu próprio estatuto, preferindo defender, em vez de expulsar, criminosos condenados em última instância pelo STF, com ministros escolhidos pelo próprio PT. O povo tem memória curta. E aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo. O livro de Villa é um antídoto contra esse esquecimento. Leiam!

Àrvorr genealógica

Mãe, vou casar!

Jura, meu filho ?! Estou tão feliz ! Quem é a moça ?

Não é moça. Vou casar com um moço. O nome dele é
Murilo.

Você falou Murilo... Ou foi meu cérebro que sofreu um
pequeno surto psicótico?

Eu falei Murilo. Por que, mãe? Tá acontecendo alguma
coisa?

Nada, não... Só minha visão que está um pouco turva.
E meu coração, que talvez dê uma parada. No mais, tá tudo ótimo.

Se você tiver algum problema em relação a isto,
melhor falar logo...

Problema ? Problema nenhum. Só pensei que algum dia
ia ter uma nora... Ou isso.

Você vai ter uma nora. Só que uma nora... Meio macho.
Ou um genro meio fêmea. Resumindo: uma nora quase macho, tendendo a um
genro quase fêmea...

E quando eu vou conhecer o meu. A minha... O Murilo ?

Pode chamar ele de Biscoito. É o
apelido.

Tá ! Biscoito... Já gostei dele.. Alguém com esse
apelido só pode ser uma pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui ?

Por quê ?

Por nada. Só pra eu poder desacordar seu pai com
antecedência.

Você acha que o Papai não vai aceitar ?

Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei se
ele vai sobreviver... Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo
que você achou sua cara-metade. E olha que espetáculo: as duas metade
com bigode.

Mãe, que besteira ... Hoje em dia ... Praticamente
todos os meus amigos são gays.

Só espero que tenha sobrado algum que não seja... Pra
poder apresentar pra tua irmã.

A Bel já tá namorando.

A Bel? Namorando ?! Ela não me falou nada... Quem é?

Uma tal de Veruska.

Como ?

Veruska...

Ah !, bom! Que susto! Pensei que você tivesse falado

Veruska.

Mãe !!!...

Tá.., tá..., tudo bem...Se vocês são felizes. Só fico
triste porque não vou ter um neto .

Por que não ? Eu e o Biscoito queremos dois filhos.
Eu vou doar os espermatozóides. E a ex-namorada do Biscoito vai doar os
óvulos.

Ex-namorada? O Biscoito tem ex-namorada?

Quando ele era hétero... A Veruska.

Que Veruska ?

Namorada da Bel...

'Peraí'. A ex-namorada do teu atual namorado... E a
atual namorada da tua irmã . Que é minha filha também... Que se chama
Bel. É isso? Porque eu me perdi um pouco...

É isso. Pois é... A Veruska doou os óvulos. E nós
vamos alugar um útero.

De quem ?

Da Bel.

Mas . Logo da Bel ?! Quer dizer então... Que a Bel
vai gerar um filho teu e do Biscoito. Com o teu espermatozóide e com o
óvulo da namorada dela, que é a Veruska
..

Isso.

Essa criança, de uma certa forma, vai ser tua filha,
filha do Biscoito, filha da Veruska e filha da Bel.

Em termos...

A criança vai ter duas mães : você e o Biscoito. E
dois pais: a Veruska e a Bel.

Por aí...

Por outro lado, a Bel...,além de mãe, é tia... Ou
tio... Porque é tua irmã.

Exato. E ano que vem vamos ter um segundo filho. Aí o
Biscoito é que entra com o espermatozóide. Que dessa vez vai ser
gerado no ventre da Veruska... Com o óvulo da Bel. A gente só vai
trocar.

Só trocar, né ? Agora o óvulo vai ser da Bel. E o
ventre da Veruska.

Exato!

Agora eu entendi ! Agora eu realmente entendi...

Entendeu o quê?

Entendi que é uma espécie de swing dos tempos
modernos!

Que swing, mãe ?!!....

É swing, sim ! Uma troca de casais... Com os óvulos e
os
espermatozóides, uma hora no útero de uma, outra hora no útero de
outra...

Mas...

Mas uns tomates! Isso é um bacanal de última geração
! E pior... Com incesto no meio..

A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso
filho, só isso...

Sei !!! ... E quando elas quiserem ter filhos...

Nós ajudamos.

Quer saber ? No final das contas não entendi mais
nada. Não entendi quem vai ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem,
de quem vai ser o útero,o espermatozóide... A única coisa que eu
entendi é
que...

Que... ?

Fazer árvore genealógica daqui pra frente... vai ser foda.

(Luiz Fernando Veríssimo)

A solidão digital - CARLOS ALEXANDRE



CORREIO BRAZILIENSE - 26/11
Não pretendo elaborar nenhum veredicto, tampouco julgar o comportamento de uma multidão. Mas ultimamente tenho notado uma discussão que se tornou frequente, talvez até constante, em relação ao mundo dominado pela tecnologia. Chama a atenção a quantidade de pessoas que demonstram um cansaço em relação às redes sociais e ao ambiente virtual. A dedicação máxima que se concede ao Facebook, ao Twitter, ao Instagram e a outras tantas agremiações desperta fastio e preocupação. São comuns os relatos de gente que não aguenta mais tanta exposição, tanto disparate, tanta agressividade, tanta baixaria, tanta inveja, tanta superficialidade. A exacerbação generalizada ganha contornos ainda mais agressivos particularmente em momentos específicos, como o que ocorre atualmente com o mensalão.
Não se trata apenas de opiniões lançadas no espaço virtual. As redes sociais se tornaram instrumento político a serviço de interesses partidários. O ex-presidente Lula já convocou o exército de militantes para defenderem os ideais do partido. Surgiram denúncias sobre os robôs do PT, soldados virtuais treinados para desferir ataques à oposição e disparar ofensas a fim de prejudicar determinado partido ou personalidade pública. Outros, envernizados de observadores independentes, especializaram-se em atacar a "mídia golpista" ou as vozes da elite. É preciso considerar, no entanto, que o uso político das redes sociais pode ser analisado como o exercício de direito democrático. Trata-se de canal em que o cidadão pode manifestar a opção por determinada ideologia, candidato, partido ou governo. Enquanto o debate se mantiver em limites civilizados, parece-me parte do jogo.

Mas gostaria de ressaltar outros aspectos observados na predominância das redes. Há muito tempo se alerta para a formação de uma geração que se distancia cada vez mais do mundo real, do convívio pessoal, dos livros, da necessidade humana de contemplação. Caminhamos para nos tornarmos uma sociedade multifocal, hiperinformada, instantaneamente atualizada. Seguimos a passos rápidos, no entanto, para a despersonalização, o distanciamento, a emoção solitária. Há multidão na nossa timeline e temos cada vez mais dificuldade em confabular com alguém por 30 minutos. Eis o mundo da solidão digital.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

DESPEDIDA

Existem duas dores de amor: A primeira é quando a relação termina e a gente, seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro, com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva, já que ainda estamos tão embrulhados na dor que não conseguimos ver luz no fim do túnel. A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel. A mais dilacerante é a dor física da falta dos beijos e abraços, a dor de virar desimportante para o ser amado. Mas, quando esta dor passa, começamos um outro ritual de despedida: a dor de abandonar o amor que sentíamos. A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre, sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também… Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou. Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém. É que, sem se darem conta, não querem se desprender. Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um souvenir, lembrança de uma época bonita que foi vivida… Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual a gente se apega. Faz parte de nós. Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis, mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo, que de certa maneira entranhou-se na gente, e que só com muito esforço é possível alforriar. É uma dor mais amena, quase imperceptível. Talvez, por isso, costuma durar mais do que a ‘dor-de-cotovelo’ propriamente dita. É uma dor que nos confunde. Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos, que nos colocava dentro das estatísticas: “Eu amo, logo existo”. Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente… E só então a gente poderá amar, de novo.
 m
MARTA MEDEIROS
Ao ser indagado se não tinha esperanças, Kafka disse, “esperanças há muitas, mas não para nós”. Janouch narra um dia em que ele, com 20 anos, disse a Kafka, então com 40, “hoje não estou entendendo nada do que você diz”. Kafka respondeu “deve ser a misericórdia de Deus, porque sendo você jovem, e estando eu hoje pessimista, se você me entendesse, você ficaria mal”. Confessa: “o pessimismo é meu pecado”.
Por que os clássicos são tão pessimistas? Seria o trágico uma moda? Três mil anos de moda? Improvável. Na sua coluna de 21 de janeiro, meu colega ilustrado (velha piada entre nós) Marcelo Coelho critica “meu” pessimismo. Colunistas que “matam a esperança” são supérfluos. O bom jornalismo opinativo é pautado pelo conflito de idéias, por isso, agradeço suas críticas. Ele acha que ao duvidar do Iluminismo reforço forças regressivas na experiência humana. Eu penso que o Iluminismo é que é regressivo porque caminha sobre fantasias enquanto os homens caminham sobre tumbas. Nós modernos somos a raça mais covarde que caminhou sobre a Terra. Não escrevo para tornar a vida do meu leitor melhor. Escrevo e leio para não me sentir só. Quando olho os “avanços” da nossa minúscula história, penso: como nos verão em mil anos? Como a decadência do século 17? Rirão de nós porque demos direitos aos ratos, enquanto fizemos dos bebês lixo reciclável pelo direito de gozar mais? Respondo a pergunta “o que eu acho da Revolução Francesa?” com “ainda é cedo pra dizer qualquer coisa”.

Imaginem dois africanos no século 19. Um vende o outro como escravo (negros vendiam negros). O escravo é levado para os Estados Unidos e lá sofre todo tipo de horror da escravidão. O outro fica livre e feliz na África. Adiantem o filme. O bisneto do escravo mora nos EUA, casa na praia, filhos na faculdade, e a esposa, bisneta de outro escravo, médica de sucesso. Voltem pra África. Muitos bisnetos do que ficou lá continuam a viver em seus buracos, matando-se do mesmo jeito (como acabou a escravidão, perderam a chance de vender seus “irmãos”). Famílias afundam na miséria. Qual é a moral desta história? Que a escravidão foi uma bênção para os afro-americanos porque os levou para os EUA? E a liberdade do outro, a maldição de seus bisnetos? Os afro-americanos, que hoje celebram a vitória do Obama, depois de muito sofrimento, diriam “ainda bem que nossos bisavós foram escravos”? Não! A escravidão é um horror.

A questão é outra: qual o sentido da história humana? Nenhum. A história não é a luta entre a luz e as trevas. Não porque elas não existam, mas porque não sabemos identificar, com o microscópio das idéias claras e distintas de que dispomos, a trama infinita de suas relações. Um homem faz o que pode em meio a opacidade do mundo. Meu pecado é não fazer o marketing da democracia de massa. Falsos sentimentos são comuns nos homens, logo, quanto mais homens, maior a chance de mentira, por isso desconfio de bons sentimentos em grandes quantidades.

Mais? Os índios não vivem em comunhão com a natureza, apenas ficaram na idade da pedra em técnicas de domínio da natureza, como muitos africanos que ficaram na África. A ciência e a política tampouco fazem os homens melhores. O mundo não é dividido entre elite má e pobre bom. Se a elite é cruel, o povo é violento e interesseiro. Os homens não são iguais, alguns são melhores. A igualdade ama o medíocre. É mentira que todo mundo possa julgar as coisas por si só. A propaganda desta mentira gera uma horda de invejosos que sonham em destruir quem eles julgam livres. Supérfluo? Mentira. Num mundo parasitado pelo marketing como forma de vida, ser pessimista é um método. Não se trata de dizer morbidamente “o mundo é mau”, mas reconhecer que no humano a verdade é uma ferida incurável. A esperança que conta é a do animal ferido.

Nada disso implica concordar com crianças mortas. O debate ao redor da esperança não é um problema do quão otimista somos, mas o que em nós nos faria colaborar com nazistas na França ocupada, além do medo. Manter o emprego? A chance de destruir alguém melhor do que eu? Tomar a mulher de alguém? Promoção pessoal? Nada mais banal, nada mais humano. Na “Metamorfose”, Gregor Samsa, agora uma barata, vê a delícia que é caminhar de cabeça pra baixo com suas perninhas coladas ao teto. Sente-se finalmente feliz. A barata é a otimista em Kafka.
Luiz Felipe Pondé