Os EUA não têm presidente; têm uma baratinha tonta que fala demais e depois
espera por um milagre
Nunca sigas o teu primeiro instinto porque ele
será sempre generoso. O conselho é de Talleyrand, diplomata e premiê francês do
século 19. É um bom conselho. Pena que Barack Obama nunca o tenha
seguido.
A vaidade do presidente americano, apaixonado pelas suas
palavras grandiloquentes e pela sua suposta retidão moral, é incompatível com o
realismo cínico, porém salvífico, do político francês.
E, no entanto, se
Obama tivesse lido Talleyrand, talvez ele não tivesse mergulhado os Estados
Unidos no desastre do dossiê sírio. Que promete continuar e
gangrenar.
Tudo começou há um ano, quando Obama, do alto do seu púlpito,
seguiu o seu instinto generoso e afirmou que o governo da Síria não poderia
cruzar certas "linhas vermelhas".
Que bonito! O carniceiro de Damasco
poderia matar o seu povo de todas as formas possíveis e imaginárias. Como, de
fato, o tem feito com apreciável sucesso.
Mas, cuidado!, ele não poderia
usar armamento químico. Isso é feio. Isso fere a sensibilidade do mundo. E
Obama, humildemente, existe para representar o mundo.
Como é evidente, o
moralismo vácuo do personagem é aberrante. Não apenas porque armamento
convencional tem uma capacidade destrutiva que pode ser incomparavelmente
superior a qualquer arma química. Mas sobretudo porque, com armas químicas ou
sem elas, é a brutalidade de Bashar al-Assad que deveria ter comovido Obama
desde o início.
Se o presidente americano considerava intoleráveis as
matanças de Assad, só restava a Obama ter agido em conformidade: punindo o
regime, promovendo a sua queda e apoiando os rebeldes que, nesses tempos
primitivos, ainda lutavam sem a Al-Qaeda a acompanhá-los.
Mas a triste
história das "linhas vermelhas" revela duas cegueiras suplementares. Para
começar, estabelecer "linhas vermelhas" em política internacional é sempre uma
tentação para que alguém se atreva a cruzá-las.
E esse alguém pode ser
Assad; ou a oposição a Assad; ou os grupos jihadistas que operam no interior da
Síria (e que já representam 20% dos rebeldes) --as hipóteses são múltiplas. As
hipóteses são tentadoras.
E, cedo ou tarde, elas acabariam por ser
experimentadas: por Assad, para testar a seriedade do ultimato de Washington;
pela oposição a Assad, para arrastar Washington para o conflito sírio; ou até
por ambos, como parece ser o caso nesta luta entre selvagens.
Por fim, e
talvez mais importante, ninguém estabelece "linhas vermelhas" se não sabe
antecipadamente o que irá fazer se elas forem violadas. Obama, manifestamente,
não sabe.
Às segundas, quartas e sextas, o presidente americano quer
punir Assad com bombardeamentos aéreos. Às terças e quintas, Obama exige mais:
criar as condições para mudar o regime. Aos sábados e domingos, dias de
descanso, talvez Obama deseje secretamente não fazer nada e esquecer o assunto
de uma vez por todas.
Hoje, cada um desses caminhos já se tornou pior que
o anterior. Se decidir punir Assad --pelo ar, jamais por terra-- isso deixará o
ditador intacto e, aos olhos dos sírios, o verdadeiro resistente contra mais uma
agressão imperialista.
Se, pelo contrário, Obama optar pela mudança de
regime, isso pode significar entregar o poder de Damasco aos exatos jihadistas
que os Estados Unidos passaram a primeira metade do século 21 a
combater.
Por último, não fazer nada, depois da belíssima retórica das
"linhas vermelhas", será sempre uma revelação de medo e fraqueza que o
terrorismo islamita não esquecerá.
Não admira que, perdido no seu
labirinto, Obama já admita tudo: consultar o Congresso; pedir autorização às
Nações Unidas; talvez fazer uma peregrinação à Senhora da Aparecida. Os Estados
Unidos não têm um presidente; têm uma baratinha tonta que fala demais e depois
espera por um milagre.
Faça o que fizer no conflito da Síria, Barack
Obama já perdeu. E perdeu porque acreditou que as suas palavras sentimentais,
que costumam conquistar os corações moles do Ocidente, teriam o mesmo efeito
hipnótico entre a pior vizinhança do Oriente Médio.
Se calhar, foi por
isso que lhe atribuíram o Prêmio Nobel da Paz. Guerra, definitivamente, nunca
foi com ele.
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