O GLOBO - 06/1
Nunca
este instante deste domingo, neste jornal de domingo existiu antes ou voltará a
existir, ainda que o próximo possa ser bastante parecido
Domingão de
sol ou de chuva, não sei, hoje é quinta-feira. Sei é que neste instante deste
domingo, neste jornal de domingo sendo lido agora, neste instante, este instante
é agora. Todo domingo, gostando-se ou não, é domingo. Nascem Domingas e
Domenicos. Inevitável este instante deste domingo, agora. Cada palavra
revelando-se nesta página deste jornal, deste domingo, neste instante deste
domingo, sendo lida, agora, no instante em que está sendo lida, é esta palavra,
neste instante. Nunca antes deste instante houve este instante deste
domingo.
Domingo é dia de domingo, não há disfarce para este instante de
agora deste domingo. O jornal de domingo não foi feito no domingo, mas é domingo
quando, neste instante deste domingo, cada palavra é lida neste instante, nem
antes nem depois do instante em que este domingo está sendo este domingo, agora.
Domingas e Domenicos sendo velados. Nunca este instante deste domingo, neste
jornal de domingo existiu antes ou voltará a existir, ainda que o próximo possa
ser bastante parecido.
Enquanto está sendo lido o jornal de domingo deste
domingo, neste instante de agora, este instante de agora está sendo este
instante de agora. É domingo enquanto este instante de agora neste jornal de
domingo está sendo este instante de agora deste domingo, enquanto Domingas e
Domenicos estão sendo concebidos.
Cada palavra sendo lida neste jornal de
domingo deste domingo, neste instante, agora, é lida enquanto este instante está
sendo este instante. No instante de agora, este instante, neste instante, neste
jornal de domingo, é o instante, neste instante.
A palavra sendo lida
neste jornal de domingo, porque cada palavra só é palavra neste instante de
agora em que está sendo lida, cada palavra lida neste jornal de domingo deste
domingo, enquanto agora está sendo agora, irrecuperavelmente agora, cada palavra
sendo lida agora neste instante, nesta contracapa do Segundo Caderno do jornal
de domingo, só é palavra por estar sendo lida, agora.
É agora que este
instante está sendo agora. Neste jornal de domingo deste domingo, este instante,
no instante em que cada palavra é a palavra lida, e só assim ela é palavra, ela,
a palavra é o instante de agora neste jornal de domingo, deste domingo. Amanhã,
segunda-feira, o jornal de domingo não deixará de ser o jornal de domingo.
Poderá ser o jornal de ontem, mas não escapará de ser jornal de domingo e é
nesse escaninho dos acervos em que vai jazer. Os que escrevem para o jornal já
vivem normalmente atormentados desde que Rubem Braga disparou “escrever para o
jornal é como escrever na areia”. Imagina no domingo. Todo mundo espera alguma
coisa de um sábado à noite quando o jornal de domingo já está consumado. Como
este instante, consumido, neste instante, agora. Há quem leia o jornal de
domingo já no sábado, mas será este domingo neste instante, este, de agora,
ainda que o jornal já esteja lido, o horóscopo dissecado, as palavras-cruzadas
feitas. Nada se sabe do instante seguinte, a não ser que virá. E que já
foi.
Nenhuma outra espécie de vida sobre o planeta está neste instante
lendo o jornal de domingo porque para nenhuma outra espécie de vida sobre o
planeta é domingo, ou deixa de ser. O jornal de domingo, neste instante sendo
lido por um espécime da única espécie que lê o jornal de domingo, procurando por
alguma coisa que não saberia nomear e que talvez seja por isso mesmo que procura
a cada página, instante por instante. Um exemplar da espécie que está destruindo
o até então único planeta que conhece bem e do qual necessita para sobreviver.
Os golfinhos por exemplo, não leem os classificados do jornal de domingo, as
crônicas mal traçadas ou o caderno de esportes, estão muito ocupados em ser
golfinhos.
Todo mundo espera alguma coisa do jornal de domingo. Deste
jornal de domingo, deste domingo, neste instante, de agora. Neste, este. Este
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