sexta-feira, 15 de novembro de 2013
A maior ironia Lya Luft
Com o ensino cada vez pior - e ainda por cima sendo mais difícil conseguir umareprovação -, temos gente saindo das universidades quase sem saber coordenar pensamentos e expressá-las por escrito, ou melhor: sem saber o que pensar das coisas,desinformados e desinteressados de quase tudo. Fico imaginando como será emalgumas décadas. A ignorância alastrando-se pelas casas, escolas, universidades,escritórios, congressos, senados... Multidões consumistas ululando nas portas ecorredores de gigantescos shoppings, países inteiros saindo da obscuridade - não pelademocracia, mas para participar da orgia de aquisições, e entrar na modernidade.Em algumas coisas sou pessimista: essa é uma delas. Mas acredito que os que aindaquiserem pensar, estudar, descobrir, inventar, pintar, dançar, cantar ou escrever vãoviver numa espécie de ilha. Talvez em universidades tradicionais ou ultra-adiantadas, ouno aconchego de bibliotecas em casa, praticamente todas de e-books ou recursos comque nem sonhamos, exigindo pouco espaço.Já existem em países adiantados intelectuais, pensadores, pesquisadores, cientistas pagos simplesmente para pensar. Criar, inventar, descobrir. Um deles, meu conhecido,cujo hobby é tocar piano, conseguiu, sem ter de pedir, uma sala enorme à prova de som, para tocar altas horas ou de dia, sem incomodar vizinhos.As atuais agitações em países do Oriente me fizeram pensar que a filosofia (os gregos)foi substituída pela religião, a religião pelas ideologias, e as ideologias, atualmente, peloconsumismo. Não sou contra consumir, gosto do meu celular eficiente e relativamentemoderno, embora saiba que em poucas semanas, ou dias, ele estará ultrapassado. Issonão me incomoda. Não me deixa ansiosa por trocar este por outro, que em pouco tempotambém deverá ser substituído, numa compulsão idiota. Não gosto é dessa compulsãoidiota. Meu computador e meu notebook são atualizados e eficientes, mas não meimporta que em algumas semanas estejam superados, desde que funcionem bem.Gosto de poder trocar de carro quando o outro bate biela (não sei o que é biela mas ouvifalar). Porém, nem posso nem desejo estar sempre com o último modelo, ou o maisluxuoso. Diante da miséria de meu país, acho que isso me envergonharia, comocaríssimas joias e bolsas ou roupas de grife. Vivo uma busca de simplicidade, que ajuda bastante a viver curtindo mais e melhor as coisas boas que existem no meio do horror.Podem ser simplíssimas, como um livro interessante, um Mozart profundo, as criançasque correm no jardim de uma casinha que temos na montanha. Um casal de guaxininsfez seu ninho embaixo da varanda, nosso novo encantamento.Se a gente não consegue coisas desse tipo, a vida fica pesada demais. Corrida demais.Relógios demais, compromissos demais, bebida, comida, contas demais, e de repente avelha prostituta que chamamos Morte revira seus olhos sinistros de gato, limpa os bigodes e prepara o bote.E nós, onde estamos? Em casa, na cama, na loja, no bar, na praia, na multidãoenlouquecida, na solidão do hospital - ou rodeados de alguns afetos essenciais? Ousozinhos, mas apaziguados? Ou em alguma ilha, que pode ser de artistas ou pensadoresdignamente valorizados, ou no minúsculo escritório, ou quarto, em casa, sentindo ocontentamento de alguns momentos bons, ou simplesmente refletindo, contemplando?Vamos ter “aproveitado” a vida, coisa que se aconselha aos jovens desde o tempo deminhas avós - aos rapazes naturalmente, naqueles tempos de moças recatadíssimas -,vamos continuar infantilizados, ou vamos melhorar um pouco como seres humanos? Ouisso tudo não nos interessa nadinha (o que é mais provável)?
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