aspecto mais grave da situação está no fato de que, até agora, o governo
federal ainda não entendeu bem as origens e os motivos das manifestações
populares
Como era inevitável e necessário, a presidente Dilma
Rousseff anunciou sua tristeza com a morte em São Paulo de um rapaz de 17 anos,
vítima de um tiro no tórax disparado por um policial militar.
Foi um
gesto obviamente indispensável. Mas ele não absolve a presidente da necessidade
de pedir desculpas ao país todo pela incompetência das autoridades no controle
de manifestações populares. “A violência contra a periferia é a manifestação
mais forte da desigualdade no Brasil”, disse ela.
Acontece que a
desigualdade, que é histórica e visível no país inteiro, não é fenômeno recente.
E tem produzido tragédias inevitáveis. Melhor dizendo, aparentemente
inevitáveis. De tempos em tempos, aqui ou ali, e mesmo em estados ricos como São
Paulo, o legítimo direito dos cidadãos ao protesto é deformado por atos de
violência que, pelo menos aparentemente, apanham de surpresa as autoridades de
todos os níveis.
A surpresa provoca uma súbita reação dos ocupantes do
poder, em todos os níveis. Como a da presidente Dilma, que correu para a caneta
e disponibilizou R$ 50 bilhões para ajudar em projetos declarados “de mobilidade
urbana”. Um bom pedaço vai para a construção do metrô de Curitiba, que,
literalmente, ganhou sem briga.
O aspecto mais grave da situação está no
fato de que, até agora, o governo federal ainda não entendeu bem as origens e os
motivos das manifestações populares que acabam em violência. Como disse, com
louvável sinceridade, o ministro da Secretaria Geral, Gilberto Carvalho. “Não
basta criminalizar essa juventude,” disse ele, reconhecendo que o governo
precisa entender até que ponto a cultura da violência emigrou da periferia para
as recentes manifestações de rua.
É uma posição aparentemente sensata:
como em qualquer tipo de conflito, deve-se conhecer a força e os motivos — tanto
os óbvios como os subterrâneos —, levando-se em conta que, muitas vezes ou quase
sempre, parte considerável dos manifestantes mal sabe por que saiu para a
briga.
Os poderes públicos não devem imitá-los. Só ganharão a guerra se
conhecerem todos os motivos dos manifestantes destes dias. Até mesmo aqueles que
eles desconhecem.
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