O GLOBO - 03/11
À
época, os jovens que os atacaram justificaram sua ação dizendo tê-los confundido
com um casal gay. A barbárie está para toda a gente
Recentemente
aconteceu uma morte que chocou a cidade de Palmas, Tocantins. Um professor de
português de 56 anos foi morto a pedradas na saída da escola onde trabalhava. A
barbárie de sua morte teve motivação: o professor assumiu ser gay. Infelizmente,
o crime ainda não foi esclarecido. Neste contexto, a demora na apresentação dos
culpados acena para um problema ainda maior: o fracasso do poder público em
garantir o pleno exercício dos direitos humanos no Brasil. A história da morte
desse professor que era pai de três filhas nos faz pensar se o brasileiro está
sabendo lidar com as questões ligadas à livre manifestação de afetos, também
estas, um direito humano. Não é de hoje que o MEC vem tentando apresentar
material didático que possa contemplar as carências de abordagem sobre o tema.
Os parâmetros curriculares mencionam a necessidade de trabalhar a diversidade
sexual nas unidades escolares como tema transversal, mas falta ainda capacitação
adequada ao corpo docente.
Alguém ainda se lembra do pai que teve a
orelha decepada num rodeio em São Paulo só porque estava abraçado ao seu filho?
À época, os jovens que os atacaram justificaram sua ação dizendo tê-los
confundido com um casal gay. A barbárie está para toda a gente e por todos os
lados! Quem será a próxima vítima?
Vivemos em tempos nos quais a
capacidade humana de racionalizar e reagir se mostra condicionada a uma matriz
que nos estagna e corrompe. Num contexto onde a revolução digital proporciona ao
homem avanços significativos, assistirmos ainda e de forma recorrente casos de
homofobia e, muitos deles, sem que a vítima possa se defender; é um
retrocesso.
O que falta para que o poder legislativo compreenda a
emergência de atuar no combate às mortes por crime de ódio? Os jovens ou adultos
que cometeram esse ato de crueldade com o professor tocantinense continuarão no
anonimato e serão incentivados por nossa indiferença. Já é hora de o Brasil
acordar!
Vergonhoso para um país como o nosso ter em sua gente alguém que
julga ser legítimo decidir e executar a morte daqueles que se declaram gays. Já
não basta a chacota diária que sofrem todos os efeminados? Faz décadas que Chico
Buarque compôs “Geni e o Zepelim” e a pedra lançada contra Geni, destituída de
sua força poética, ainda sustenta os que valem pela homofobia e por tantas
outras ações preconceituosas. Enquanto negarmos direitos às mulheres, aos
negros, aos portadores de necessidades especiais, reconhecer a diversidade
sexual como uma questão legítima e humana será uma premissa sempre relegada a
segundo plano. Enrijecemos muito nosso olhar e nossa sensibilidade com essa
pseudotolerância. O comandante do Zepelim que o diga!
Espero ainda viver
num país em que nossas escolas possam ter professores capazes de se assumirem
sexualmente sem correrem o risco de serem apedrejados. Que nossas autoridades
possam assegurar os direitos de todos, garantindo sua cidadania e dignidade.
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