sexta-feira, 1 de novembro de 2013
O que é ser livre
Falar sobre a liberdade é uma das questões mais fascinantes da psicologia. Usamos muitoessa palavra, mas temos dificuldade em conceituá-la. Todo o mundo afirma que quer serlivre, mas pouca gente sabe dizer o que quer fazer com a liberdade.É comum pensar que se pode agir sem impor limites à nossa vontade. Não é meu ponto devista. Aliás, não tenho muita simpatia pela idéia de que viver bem é não abrir mão denenhum tipo de desejo. Essa abordagem me parece ingênua e não leva em conta o fato deque, em nossa vida interior, há outras peças tão importantes quanto as do desejo.Por exemplo: uma pessoa me agride e eu tenho vontade de revidar com toda a força eposso até desejar matá-la. Mas tenho dentro de mim um conjunto de valores morais. Se eutransgredi-los, experimentarei uma dor íntima muito desagradável, que é a culpa. Osanimais em geral não sentem outra coisa senão o desejo e o medo. O homem não: tem umcérebro sofisticado que "fabrica" conceitos e padrões de comportamento que as pessoasacham muito importante respeitar. Em muitos casos, as normas estão em oposição àsnossas vontades. No exemplo citado, isso fica evidente. Pelos nossos valores éticos, nãotemos o direito de matar outro ser humano.Como agir? Respeitamos a vontade ou os padrões? Acredito firmemente que devemos nosater aos padrões. Devemos seguir nossos pontos de vista e nossas convicções. Agir sempreem concordância com a vontade é franca imaturidade, é não saber suportar frustrações econtrariedades. Evidentemente que estou me referindo às situações em que a razão estáem oposição à vontade. No caso de ela não provocar nenhuma reação negativa, é lógicoque devemos tentar realizá-la.Não se trata, portanto, de desprezar nossos desejos. Se estou com boa saúde, posso comerdoces. Se for diabético, tenho de ter a capacidade de abrir mão deles. Se quero namoraruma determinada moça, nada me impede de fazê-lo, desde que eu me preocupe em nãomagoá-la à toa. Não acho acertado considerar mais livres as pessoas que não ligam para simesmas e para os outros. Elas são mais irresponsáveis e até autodestrutivas. Se um homemsabe que o álcool lhe faz mal e continua bebendo, ele não é mais livre. É mais fraco.Nos séculos passados, o ser humano vivia por normas exageradamente rígidas e algunspsicólogos acabaram concluindo que a verdadeira liberdade consistia em jogar fora essacamisa-de-força, guiando-nos a partir de nossos desejos. A idéia é boa, mas – na prática – éinviável. A vida em grupo exige que se preste atenção também aos outros. O amor e asolidariedade que sentimos naturalmente dentro de nós pedem isso. Não posso magoar aspessoas que amo sem sofrer. Nesse caso, antes de satisfazer a vontade, tenho de refletirmuito, avaliando e pensando nas conseqüências.Acredito que ainda seja adequada a definição que expressei há cerca de dez anos.Liberdade não é realizar todas as vontades. Não é ser desta ou daquela maneira. Liberdadeé a sensação íntima de prazer que deriva da coerência entre o que pensamos e forma comoatuamos. Sou livre se sou capaz de agir de modo coerente com o que penso. Algumas vezesrespeito a vontade; outras, as normas morais. Em cada situação eu tomo decisões, válidasapenas para aquele momento. Sei dizer "sim", sei dizer "não". Tudo depende da importânciado desejo e da permanente preocupação de equilibrar os meus direitos e os direitos dasdemais pessoas. Aceitar certos limites para as nossas vontades é sinal de maturidade, nãode resignação e conformismo. É sinal de força, não de fraqueza.
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