recente e surpreendente decisão do Ministro Luiz Fux de suspender o corte do ponto dos
professores grevistas do Estado do Rio e de promover uma audiência de
conciliação entre as partes é exemplar da inversão de papéis institucionais que
vivemos hoje no país. Ao chamar à mesa de negociações governantes e grevistas, o
ministro atua politicamente, avocando para o Judiciário um papel que originalmente não era seu, mas da
classe política. Seria essa mais uma mostra da intromissão do Poder Judiciário na política ou
mais uma mostra da falência da nossa classe política?
Desde junho, temos sido surpreendidos
por uma explosão de participação nas ruas, com a multiplicação das marchas de
protesto, pelos mais diferentes motivos, desde a remoção da Aldeia Maracanã até
a redução da jornada de trabalho. O repentino despertar do gigante , com
multidões de jovens, de cara pintada, reivindicando um Brasil melhor , deixou a
todos atônitos. Intelectuais, autoridades, ativistas políticos maravilhavam-se
diante do que parecia ser a nossa primavera, buscando explicações e arriscando
prognósticos. O presente era lindo e o futuro radiante. Até que veio a
violência. E a frustração. Neste momento, ficou patente o despreparo da nossa
classe política.
As
jornadas de junho injetaram nas ruas milhares de indignados de todas as idades,
condições sociais e ideologias. Porém, a rejeição à política tradicional, vista
como corrupta, e a toda liderança, privou os manifestantes de uma direção,
isolou o movimento, diluiu suas reivindicações e abriu a porta para a violência.
Os indignados deixaram as ruas, ocupadas pelos grupos radicais. E contra a força
bruta, só a força bruta.
De um lado, os resistentes , como se
autointitulam os black blocs, de outro, o Batalhão de Choque. Desde então, este
tem sido o roteiro básico das nossas vidas. As manchetes ficam prontas nas
redações à espera do dia seguinte: a manifestação, que começou pacífica,
terminou em violência. E onde há violência não há política. O triste espetáculo
das constantes batalhas nas ruas, depredações, prisões, ocupações de prédios
públicos (e suas remoções igualmente violentas) e a indisponibilidade para o
diálogo e a negociação parecem apontar para uma espiral de polarização e de
banalização da violência.
Neste cenário de entropia crescente,
cabe a pergunta: para quê serve a política? Onde estão os políticos? Talvez
apostando perigosamente na política do quanto pior, melhor para colher
dividendos políticos e eleitorais? A falta de canais de diálogo franco e efetivo
tem nos levado à total abdicação da política. Tem nos levado a situações
críticas e a grandes impasses. A tal ponto que o Judiciário teve que repolitizar uma questão jurídica,
reinstaurando a negociação política como modo de solução de
conflitos.
Se é
verdade, como pensa Hannah Arendt, que o fim da política é o exercício da
liberdade, em um ambiente de pluralidade, estamos indo na direção.
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