O Estado de S.Paulo -
01/10
Causou impacto, recentemente, a invenção do hambúrguer de
laboratório. Pudera! Ninguém imaginava que as pesquisas com células-tronco,
reconhecidas na saúde humana, pudessem produzir algo parecido com uma fábrica de
carne. Assunto empolgante.
Existe forte movimento científico, puxado por
pesquisadores heterodoxos, tentando descobrir novas fontes de proteína,
necessárias para vencer o desafio alimentar da humanidade. Segundo a Organização
das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), a demanda por comida
de boa qualidade aumentará, no mínimo, 60% até 2050. Crescimento populacional,
urbanização, aumento de renda e elevação da expectativa de vida das pessoas são
os fatores principais desse movimento.
A previsão negativa de Malthus,
feita em 1798, ficou famosa na História da humanidade. Mas não vingou. A
agricultura conseguiu vencer o dilema entre o crescimento populacional e a
oferta de alimentos, seja expandindo as terras cultivadas, seja,
simultaneamente, elevando sua produtividade por área por meio da incorporação de
tecnologia. A fome que, desgraçadamente, ainda persiste alhures se deve à má
distribuição da renda entre as famílias, não à incapacidade de produção rural.
Problema econômico, não agronômico.
Porém, mesmo passando por sucessivas
"revoluções verdes", parecem agora surgir dificuldades adicionais para a
agropecuária prosseguir em sua saga vitoriosa. Primeiro, porque os reclamos
ambientais da modernidade limitam a incorporação de novas terras, ainda
florestadas, à produção, conforme se percebe claramente no Brasil. A opinião
pública, ao contrário do passado, não quer o desmatamento. Antes inexistiam
limites à força expansiva no campo e, assim, todas as terras cultiváveis da
Europa, do Oriente Médio, dos Estados Unidos, do Japão, da China e da Índia
acabaram cedendo sua natural biodiversidade ao plantio e à criação. Floresceram
as cidades.
Comparadas ao Velho Mundo, na América Latina a urbanização e
a expansão da agropecuária se deu tardiamente. De forma semelhante, em muitos
países asiáticos, como a Malásia e a Indonésia, e na maioria da África a
ocupação produtiva do território somente agora é que ocorre para valer. Existe
nesses países, ainda, boa disponibilidade de terras aráveis. Mas a grita da
sociedade em favor da preservação ambiental restringe a sua ocupação. O machado,
ou a motosserra, perderam totalmente o prestígio.
Em segundo lugar, em
vastas localidades surgem restrições à continuidade da boa prática agrícola. O
risco aterrador da desertificação pode atingir, ao final deste século, 40% da
superfície terrestre. Na África, a degradação nos países subsaarianos periga
afetar até 50% do território. Na Ásia e na América Latina, estimam-se 357
milhões de hectares prejudicados. Segundo a teoria do aquecimento global, cerca
de metade das terras produtivas sofrerá com graves secas. O equilíbrio hídrico
compromete-se pelo rebaixamento do lençol freático ao norte da China, onde
residem 550 milhões de pessoas. Na Austrália é a salinização dos solos o grande
vilão. Só notícia ruim.
Existem outros fatores. Economistas agrários
mostram que os chamados "ganhos marginais" do avanço tecnológico são
decrescentes, quer dizer, será cada vez mais difícil incrementar a produtividade
da terra. Argumenta-se também, com certa razão, que o confinamento de animais
está elevando o uso de rações balanceadas, fabricadas à custa da produção de
grãos, especialmente soja, milho e sorgo. Se, por hipótese, fosse eliminado o
consumo de carne, como apregoam os vegetarianos, sobrariam mais cereais no
mundo, embora isso alterasse a qualidade na dieta humana. Por fim, muito
alimento está sendo direcionado para o consumo dos bichos de estimação, cães e
gatos, cuja população só aumenta.
Por essas e outras, um novo paradigma
alimentar se gesta nos ousados laboratórios. Não apenas se sintetiza carne, como
também se buscam fontes de proteína não convencionais. Nessa equação futurista,
os insetos colocam-se na dianteira. Gafanhotos, besouros, baratas, grilos,
formigas apresentam, em média, cerca de 50% de proteína em seus organismos, o
dobro da encontrada nas carnes de mamíferos e aves, cinco vezes mais que em
cereais ou batata. Ademais, seus esqueletos pectíneos se mostram ricos em ferro
e vitaminas. Com elevada capacidade de reprodução, prevê-se facilidade na
criação de insetos, possibilitando ter volume e rendimento na produção. Vem aí a
insetocultura.
A entomofagia, quer dizer, a prática de ingerir insetos,
sugere asco. Mas para muitas populações tradicionais eles são iguaria. No Vale
do Paraíba paulista, abdomes da formiga saúva, conhecidos como bunda de içá,
comem-se na frigideira há tempos. No Maranhão, larvas de besouro (boró ou gongo)
encontradas no coco do babaçu são consumidas desde as origens indígenas. Noutras
regiões do mundo, insetos também fazem parte do costume alimentar. No Japão
fazem-se pratos com as cantantes cigarras, abatidas antes que sua casca
endureça. Na Indonésia apreciam-se as libélulas. No México, ovos de formigas
negras gigantes denominam-se "caviar dos insetos". Os vietnamitas e os chineses
gostam de escorpiões. Grande é a lista de esquisitices
entomofágicas.
Tudo depende do costume alimentar, que muda com o tempo.
Hoje em dia se ingerem petiscos indecifráveis como nuggets, kani, snacks, sem
que as pessoas tenham ideia do seu conteúdo, cor e sabor artificiais.
Precisando, acostumar-se-iam com uma farofa de besouro, bem temperada. Tem mais.
Algas, micro-organismos, vermes, cascas, componentes ricos em proteínas,
calorias e vitaminas, entraram na agenda da comida do futuro. Na mira do
gourmet.
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