sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Ainda os animais - CORA RÓNAI

O GLOBO - 31/10

Tenho discutido muito desde que os beagles viraram manchete. Acredito que a mudança de paradigmas só se faz com alarde e pressão social


Nunca li tanto sobre o uso de animais em testes de laboratório, contra ou a favor, quanto na última semana. Pudera não. O assunto provoca paixões violentas nos dois lados. A internet ferveu e, compreensivelmente, não houve publicação que não abordasse a questão depois da invasão do biotério Royal. Por polêmica que tenha sido, ela teve o mérito indiscutível de trazer à ordem do dia um tema da maior importância que muitas pessoas, físicas e jurídicas, não estavam interessadas em discutir. Ou, melhor dizendo, estavam interessadas em não discutir.

Ainda assim, apesar da quantidade de artigos, posts, comentários, links e argumentos, não vi um só caso em que alguém tivesse conseguido convencer um antagonista a mudar de opinião, mesmo nos raros casos em que o debate foi conduzido com inteligência e educação. A relação entre humanos e animais esbarra em sentimentos tão complexos que, ao longo dessa semana, muitas vezes tive a sensação de estar conversando com gente de outro planeta — ou, no mínimo, de outra espécie.

Um dos meus amigos mais queridos, por exemplo, médico sensível e educado, chega a lamentar que as crianças de hoje não possam mais abrir rãs vivas, como ele fazia na escola, para aprender “como funcionam”. Quando observo que isso é imoral, ele me compreende tão pouco quanto eu o compreendo quando ele me diz que, ao contrário, é educativo e necessário. É evidente que, no caso, rodamos sistemas operacionais diferentes, incapazes de se comunicar.

______

Tenho discutido muito desde que os beagles viraram manchete. Acredito que a mudança de paradigmas só se faz com alarde e pressão social. O sistema é acomodado por excelência. É preciso sacudi-lo, insistir, chamar a atenção.

______

— Eu vou usar não um argumento mas uma reflexão — propôs Luciano Barbosa na minha página do Facebook. — Imagina que um medicamento para a cura do mal de Parkinson esteja sendo feito nesse momento. E sua mãe ou seu pai sofram desse mal terrível. Aí sai na imprensa que a última etapa antes de liberar o remédio para uso público é a de testes em animais. Você pediria para que essas pesquisas não fossem feitas? Defenderia a espera para testes em outros modelos, prolongando o sofrimento dos seus parentes? Sempre que faço essa pergunta recebo ataques raivosos... Só não recebo respostas.

— A questão que você apresenta é complicada, porque parte de uma série de subjuntivos e exige outros tantos como consideração — respondi. — Além disso, ela propõe uma troca que não deixa margens a dúvidas — a vida dos meus pais ou a vida dos animais de laboratório — em cima de uma suposição: “imagina que um medicamento...” etc. etc. etc.

O que você propõe, no fundo, pode-se resumir a uma pergunta mais simples: você ama mais os seus pais ou os animais? Ora, como eu tive a sorte extraordinária de ter pais admiráveis, e tenho a felicidade de ainda ter a minha Mãezinha a meu lado, a minha resposta é óbvia; mas cuidado! Dependendo da família de cada um, você pode mesmo ouvir respostas surpreendentes.

Em suma, o que eu quero dizer é que você personaliza o argumento clássico dos pesquisadores, que em tese matam animais para salvar humanos, mas parte do mesmo vício original deste argumento, o de que o teste em animais é a única saída de que dispomos para o avanço da ciência.

O que eu questiono, e o que tantas outras pessoas — de boas ou más famílias! — também questionam, é, justamente, a necessidade desses testes: “a última etapa antes de liberar o remédio para uso público é a de testes em animais”. Mas será isso mesmo?

A maioria das defesas de uso de animais em laboratórios que tenho lido e ouvido me passa uma sensação de... comodismo, é isso. Faz-se assim porque sempre se fez assim. Faz-se assim porque, quando alguma coisa der errado (e em geral sempre dá) todos, laboratórios e pesquisadores, poderão dizer que aquela droga maravilhosa, como o Vioxx, digamos, foi exaustivamente testada em animais.

Será que já não está na hora de irmos para o próximo capítulo?

De qualquer forma, tenho uma resposta objetiva para você, que tira o elemento emocional (os meus Pais) da jogada: se eu estivesse com Parkinson, e essa decisão estivesse ao meu alcance, não deixaria testar nada em animais. Mandaria testar em mim mesma. Isso responde à sua pergunta?

______

Já um defensor do biotério passou três dias perguntando a mim e a outras pessoas se dávamos atum para os nossos gatos. A provocação implícita dessa pergunta é clara, e vai pela mesma linha dos que acham que qualquer um que se manifeste contra testes em animais e coma carne é incoerente — e, portanto, não tem direito de se manifestar. Cansei. E dei uma patada:

— Meus gatos comem atum sim. Eu como atum. Hoje mesmo abri duas latas para eles. A vida é muito mais complexa do que aquilo a que você quer reduzi-la com esse simplismo de botequim. Estamos cercados de crueldade por todos os lados, da roupa que compramos e que é feita por pessoas que trabalham em regime de semiescravidão à tecnologia que usamos; quem acredita que isso pode mudar, e eu acredito, briga onde pode, quando pode, e vai mudando um pouquinho aqui e outro ali. A alternativa 100% coerente que você quer só tem uma saída: suicídio coletivo.

Política para que? Geraldo Tadeu

 recente e surpreendente decisão do Ministro Luiz Fux de suspender o corte do ponto dos professores grevistas do Estado do Rio e de promover uma audiência de conciliação entre as partes é exemplar da inversão de papéis institucionais que vivemos hoje no país. Ao chamar à mesa de negociações governantes e grevistas, o ministro atua politicamente, avocando para o Judiciário um papel que originalmente não era seu, mas da classe política. Seria essa mais uma mostra da intromissão do Poder Judiciário na política ou mais uma mostra da falência da nossa classe política?

Desde junho, temos sido surpreendidos por uma explosão de participação nas ruas, com a multiplicação das marchas de protesto, pelos mais diferentes motivos, desde a remoção da Aldeia Maracanã até a redução da jornada de trabalho. O repentino despertar do gigante , com multidões de jovens, de cara pintada, reivindicando um Brasil melhor , deixou a todos atônitos. Intelectuais, autoridades, ativistas políticos maravilhavam-se diante do que parecia ser a nossa primavera, buscando explicações e arriscando prognósticos. O presente era lindo e o futuro radiante. Até que veio a violência. E a frustração. Neste momento, ficou patente o despreparo da nossa classe política.


As jornadas de junho injetaram nas ruas milhares de indignados de todas as idades, condições sociais e ideologias. Porém, a rejeição à política tradicional, vista como corrupta, e a toda liderança, privou os manifestantes de uma direção, isolou o movimento, diluiu suas reivindicações e abriu a porta para a violência. Os indignados deixaram as ruas, ocupadas pelos grupos radicais. E contra a força bruta, só a força bruta.

De um lado, os resistentes , como se autointitulam os black blocs, de outro, o Batalhão de Choque. Desde então, este tem sido o roteiro básico das nossas vidas. As manchetes ficam prontas nas redações à espera do dia seguinte: a manifestação, que começou pacífica, terminou em violência. E onde há violência não há política. O triste espetáculo das constantes batalhas nas ruas, depredações, prisões, ocupações de prédios públicos (e suas remoções igualmente violentas) e a indisponibilidade para o diálogo e a negociação parecem apontar para uma espiral de polarização e de banalização da violência.

Neste cenário de entropia crescente, cabe a pergunta: para quê serve a política? Onde estão os políticos? Talvez apostando perigosamente na política do quanto pior, melhor para colher dividendos políticos e eleitorais? A falta de canais de diálogo franco e efetivo tem nos levado à total abdicação da política. Tem nos levado a situações críticas e a grandes impasses. A tal ponto que o Judiciário teve que repolitizar uma questão jurídica, reinstaurando a negociação política como modo de solução de conflitos.

Se é verdade, como pensa Hannah Arendt, que o fim da política é o exercício da liberdade, em um ambiente de pluralidade, estamos indo na direção.

Quem avacalha a política? Gazeta do Povo

Lula volta a atacar a imprensa no Congresso, ignorando que os episódios que levam ao descrédito da política foram obra dos próprios políticos, inclusive do grupo lulista
De tantas vezes repetidas, já viraram lugar comum as patéticas acusações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra a imprensa. É ela, sempre, a responsável por todos os males; é ela que faz de mártir da incompreensão o petismo que aparelhou o Estado desde os primeiros momentos da inauguração de seus dois mandatos presidenciais. Afastado já há três anos do comando formal do país – que delegou à sucessora, Dilma Rousseff –, Lula não consegue se recolher à discreta dignidade apropriada a quem já se concedeu a honra de ser o representante máximo do país.

Outra vez deixou patente sua ansiedade ao participar, na última terça-feira, das solenidades comemorativas aos 25 anos da promulgação da Constituição promovidas no Congresso. Recebeu ali homenagens, muito embora, como deputado constituinte de 1988, tenham ele e a bancada de seu partido, o PT, se recusado a subscrever a Carta Magna. Lula, o mesmo que um dia afirmou que o Congresso era habitado por “300 picaretas”, se desmanchou em elogios a José Sarney e aproveitou a oportunidade – cuja solenidade não deveria ser conspurcada pelo gênero de manifestações de que fez – para criticar a imprensa, acusando-a de “avacalhar a política”.

Seria de todo dispensável, até pela desfaçatez de suas afirmações, tecer quaisquer comentários. Em se tratando, porém, de um ex-presidente da República que, sem sombra de dúvida, ainda exerce poder e influência sobre os destinos da Pátria, é necessário fazê-lo. Até mesmo para lembrá-lo de que a “avacalhação” a que se refere não provém da imprensa, mas dos próprios políticos. À imprensa compete tão-somente exercer o seu animus narrandi dos acontecimentos e de, nos limites que lhe garantem a Constituição e o Estado Democrático de Direito, opinar e criticar.

Assim, não é da imprensa a autoria da “avacalhação” de tantos casos tornados públicos pelos veículos de comunicação, que de outra forma não poderiam agir senão em prejuízo do papel social que lhe é intrínseco. Não foi a imprensa que montou o escandaloso esquema do mensalão; não foi ela quem criou os sanguessugas, abasteceu de dinheiro ilícito os “cuequeiros” ou montou o grupo dos aloprados. Também não partiu da imprensa a ideia esdrúxula de criar cotas raciais no Legislativo, nem a de importar médicos estrangeiros para, supostamente, resolver o caos em que a saúde pública foi deixada – com a agravante de que a importação serve, subsidiariamente, para triangular o financiamento de ditaduras.

Teria sido a imprensa também a responsável por abrir as cornucópias do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar projetos megalomaníacos e inconsistentes, como os da cadeia X, do falido empresário Eike Batista? Foi a imprensa que inventou o sofisma de que o X da questão é que teria provocado a desconfiança internacional em relação aos rumos do país? E o uso da “criatividade contábil” para fechar as contas públicas, seria também criação da imprensa?

São intermináveis aquelas “avacalhações” da política que Lula atribui à imprensa. Mas citemos apenas mais uma: foram os jornais que absolveram da cassação um deputado condenado em instância final e já cumprindo pena de prisão por atos de corrupção? Certamente o presidente – que se confessa homem de poucas leituras – não se deu ao trabalho de registro que jornais e revistas, inclusive do exterior, dedicaram a vergonhoso tema.

Por tudo isso, chega a suscitar pena e desalento que um homem que tanta importância teve no cenário da redemocratização do país chegue ao ponto de manchar sua biografia com lorotas tão evidentes, falsas e descabidas. Mas é preciso reconhecer: Lula é um homem de convicções firmes – dentre as quais está a ideia de impor indireta censura à imprensa sob o cerimonioso nome de “controle social da mídia” (ainda defendido por seus herdeiros). No entanto, não é a firmeza com que alguém defende suas convicções que as torna legítimas ou justas. Um falsário convicto da história do país não deixa de ser um falsário

Educação e as vozes da rua João Batista

O Estado de S.Paulo - 01/11

Neste mês de novembro o Senado deverá aprovar o novo Plano Nacional da Educação (PNE). Não é uma resposta à voz das ruas, é uma colcha de retalhos que responde a grupos de interesse. O futuro governante - se quiser reformar a educação - terá mais um enorme desafio a vencer, considerando que os insatisfeitos hoje apreenderam a protestar com contundência.

Já tivemos dois planos de educação aprovados pelo Parlamento, ambos sem eficácia. Este terceiro não promete ser mais bem-sucedido. Mas, diferentemente dos anteriores, ao expandir a agenda de "direitos", pode tornar ainda mais ineficiente algo que já não funciona bem.

O novo PNE contém 20 propostas e centenas de indicadores - que correspondem aos desejos das várias corporações que conseguiram emplacar algumas das 2 mil sugestões apresentadas no processo de audiências públicas, organizadas no melhor estilo que o governo sabe orquestrar. Algumas medidas são inócuas ou inatingíveis, mas a maioria atende a interesses outros que não os dos alunos e engessa ainda mais o setor. Pinço, para avaliação, quatro medidas que podem dar a dimensão do estrago que a aprovação da lei e seu cumprimento poderão causar.

A mais grave é a que trata de reservar 10% do produto interno bruto (PIB) para a educação, sem antes cuidar de fazer uso mais eficiente dos recursos hoje despendidos, sem determinar o uso deles e, ainda, sem levar em conta as mudanças demográficas que o País experimenta. Na prática, significará fortalecer o governo central e enfraquecer Estados e municípios. E isso deverá ser aprovado por senadores, que são eleitos para defender a perspectiva do equilíbrio federativo.

A segunda mais grave é a que define como "gestão democrática" das escolas o modelo de eleição dos diretores. Ou seja, o governador e o prefeito eleitos democraticamente perdem o direito de contratar os seus funcionários. A democracia representativa vai para o lixo, juntamente com a Federação. Imaginem qualquer organização em que se troca a gestão a cada dois ou três anos. E como ficam os sistemas educativos em que o cargo de diretor é de carreira? Que tal fazermos eleição direta para diretores de hospitais e de presídios? Ou para os gerentes do Banco do Brasil? Dá para perceber?

A terceira é a que estabelece os 8 anos como a idade para alfabetizar as crianças, em total desrespeito às que são condenadas a frequentar a escola pública. Esse assunto nunca deveria ser matéria de lei. É questão a ser resolvida em programas de ensino, tema que as autoridades se recusam a tratar e sobre o qual a maioria dos Estados também se omite.

O quarto aspecto é uma mera ilustração de tantas outras crenças não fundamentadas sobre o que melhora a educação: trata-se da exigência de que professores tenham cursos de mestrado e doutorado, apesar da evidência de que isso tende a piorar a qualidade do ensino. Mas, claro, significa mais remuneração, independentemente da competência, que passa a ser avaliada por critérios formais.

Nenhum aspecto importante de uma verdadeira reforma educacional está previsto na lei. Mesmo porque não é assim que se fazem reformas em educação, prescrevendo no detalhe, ao melhor estilo das Ordenações Manuelinas, o que deve ser feito nas próximas décadas.

A educação brasileira padece de males estruturais. Não é algo que se mude por pactos costurados de forma açodada. Educação se faz com políticas de longo prazo e consistentes, não com colcha de retalhos. Educação se faz com instituições sólidas, respeito às evidências científicas sobre o que funciona e debate fundamentado, não sob o ruído dos decibéis.

Falar em novo "pacto" em educação requer, antes de tudo, rever o pacto federativo nas questões educacionais. Hoje todos podem tudo e o governo federal pode mais do que todos. O Ministério da Educação transformou-se num grande bazar de commodities educacionais que opera no varejo, atendendo diretamente escolas, governos municipais e estaduais e as organizações não governamentais (ONGs) e os movimentos sociais que lhe são fiéis.

Um pacto federativo real requer redefinir e restringir ao estritamente necessário e constitucional a ação do governo federal. E, no lugar de pacotes negociados em balcões de troca, usar mecanismos que estimulem Estados e municípios a desenvolver propostas diferenciadas, que atendam a critérios rigorosos, como o das evidências e da avaliação de resultados. Sem o basta ao predomínio da ideologia nas decisões não haverá progresso, por mais que o petróleo jorre das reservas do pré-sal.

As poucas reformas educativas que deram resultados eficazes, desde a revolução Meiji (no Japão), no final do século 19, têm ingredientes em comum. Um deles é a liderança de um estadista para articular ideias e granjear apoios para as reformas. Outro é o uso de evidências e melhores práticas disponíveis, devidamente adaptadas aos diferentes contextos históricos e culturais.

É também preciso paciência para começar do começo e avançar em ordem. Isso significa atrair jovens talentosos para o magistério e oferecer formação teórica adequada aos que irão lecionar e estágios probatórios rigorosos conduzidos por mestres no sentido próprio da palavra. Significa criar instituições e mecanismos sólidos, como um currículo nacional, avaliação e mecanismos de financiamento. E dar condições institucionais para que a escola possa funcionar. Isso é programa para longo prazo.

Até o momento assistimos a dois movimentos dos candidatos a presidente da República em 2014. Um quer mais do mesmo. Outro quer melhorar a partir do que está aí. Haverá um terceiro, com visão de estadista, preparado para mudar a realidade atual e colocar o Brasil na trilha de uma educação de qualidade?

E os motivos? Luiz Garcia

 aspecto mais grave da situação está no fato de que, até agora, o governo federal ainda não entendeu bem as origens e os motivos das manifestações populares

Como era inevitável e necessário, a presidente Dilma Rousseff anunciou sua tristeza com a morte em São Paulo de um rapaz de 17 anos, vítima de um tiro no tórax disparado por um policial militar.

Foi um gesto obviamente indispensável. Mas ele não absolve a presidente da necessidade de pedir desculpas ao país todo pela incompetência das autoridades no controle de manifestações populares. “A violência contra a periferia é a manifestação mais forte da desigualdade no Brasil”, disse ela.

Acontece que a desigualdade, que é histórica e visível no país inteiro, não é fenômeno recente. E tem produzido tragédias inevitáveis. Melhor dizendo, aparentemente inevitáveis. De tempos em tempos, aqui ou ali, e mesmo em estados ricos como São Paulo, o legítimo direito dos cidadãos ao protesto é deformado por atos de violência que, pelo menos aparentemente, apanham de surpresa as autoridades de todos os níveis.

A surpresa provoca uma súbita reação dos ocupantes do poder, em todos os níveis. Como a da presidente Dilma, que correu para a caneta e disponibilizou R$ 50 bilhões para ajudar em projetos declarados “de mobilidade urbana”. Um bom pedaço vai para a construção do metrô de Curitiba, que, literalmente, ganhou sem briga.

O aspecto mais grave da situação está no fato de que, até agora, o governo federal ainda não entendeu bem as origens e os motivos das manifestações populares que acabam em violência. Como disse, com louvável sinceridade, o ministro da Secretaria Geral, Gilberto Carvalho. “Não basta criminalizar essa juventude,” disse ele, reconhecendo que o governo precisa entender até que ponto a cultura da violência emigrou da periferia para as recentes manifestações de rua.

É uma posição aparentemente sensata: como em qualquer tipo de conflito, deve-se conhecer a força e os motivos — tanto os óbvios como os subterrâneos —, levando-se em conta que, muitas vezes ou quase sempre, parte considerável dos manifestantes mal sabe por que saiu para a briga.

Os poderes públicos não devem imitá-los. Só ganharão a guerra se conhecerem todos os motivos dos manifestantes destes dias. Até mesmo aqueles que eles desconhecem.

Cotas no Parlamento - HÉLIO SCHWARTSMAN



FOLHA DE SP - 01/11

SÃO PAULO - Não me parece que haja muita possibilidade de a PEC que estabelece cotas raciais no Legislativo ser aprovada, mas o tema rende uma discussão interessante.

De modo geral, não gosto da ideia de usar a cor da pele como critério para nada, mas admito que, no caso de vagas universitárias, é possível fazer uma defesa coerente desse tipo de ação afirmativa. O argumento é complexo, mas tento resumi-lo.

Tradicionalmente, o curso superior serve para formar os quadros que ficam à disposição da sociedade, de médicos e professores a ornitólogos. Se esse fosse o único objetivo, o ideal seria que a seleção fosse apenas meritocrática. Quanto melhor o aluno que entra, melhor o profissional que sai --o que beneficia a todos.

O problema é que a universidade se tornou também o principal fator de ascensão social. E, para quem toma a equidade como meta relevante, faz sentido (ou pelo menos não é absurdo) manipular um pouco as regras em favor de determinados grupos com o intuito de promovê-la.

Vale lembrar que, numa leitura mais rawlsiana, o próprio conceito de mérito precisa ser relativizado, já que ele é, em parte, resultado de uma loteria genética, equiparando-se a outras capacidades imerecidas, como beleza e direitos de nobreza.

Enquanto ações afirmativas estão restritas a universidades, é possível tentar conciliar os dois objetivos. Se a reserva de vagas não for obscena e a política tiver prazo definido, dá para preservar o principal do sistema de mérito ao mesmo tempo em que se promove a mobilidade social.

Expandir esse princípio para o Parlamento, porém, é complicado, para não dizer ridículo. O Legislativo, afinal, não desempenha nenhuma das funções da universidade. Ele só se justifica como uma assembleia de representantes da vontade dos cidadãos. A introdução de qualquer regra que limite essa vontade ou modifique seu resultado deve, portanto, ser vista com desconfiança.

Momentos perigosos

- FRANCISCO DAUDT

FOLHA DE SP - 30/10

O investimento da paixão é tamanho que sua perda precisa ser negada a qualquer custo


"O inferno não contém fúria igual à de uma mulher rejeitada." A citação de William Congreve, erradamente atribuída a Shakespeare, fala de um dos momentos mais perigosos da convivência humana: a separação, o desprezo dos apaixonados pelo objeto de sua devoção.

É curioso que a história tenha guardado ícones femininos dessa fúria (quem viu "Atração fatal", 1987, Glenn Close e Michael Douglas, nunca mais se esqueceu, homens têm calafrios só de lembrar).

O mesmo vale para o homem rejeitado (as óperas "Carmen", de Bizet, e "Os Palhaços", de Leoncavallo, terminam com homens rejeitados assassinando suas mulheres, enquanto cantam seu amor por elas).

A vingança que se segue à rejeição é tamanha, que dá uma ideia do monumental terremoto psíquico que ela envolve. Homens costumam ser mais diretos, assassinam pessoalmente. Mulheres, mais elaboradas (veneno; contratação de um assassino de aluguel; sequestro de filhos dele; perseguição implacável --"Vou dedicar minha vida a tornar a sua um inferno").

Mas mulheres atiram, e homens perseguem também.

O "stalking" ("perseguição implacável") de outros tempos --telefonemas desligados no meio da noite; lixo revirado; aparições de surpresa; barraco armado na frente do prédio; cartas anônimas; difamação --vai sendo substituído pelo instrumento de perseguição mais diabólico já inventado: a internet.

Ela permite fuçar, não mais o lixo, mas todo o conteúdo de e-mails. Possibilita difamar, não com palavras, mas com filmagens e fotos íntimas postadas na rede. Nas mãos de um bom hacker, a devassa completa da vida do outro. O inferno tornou-se muito pior na era da informática.

Mas, afinal, o que move tamanho investimento maligno? Chico Buarque cantou: "Dei pra maldizer o nosso lar, pra xingar teu nome, te humilhar e me vingar a qualquer preço, te adorando pelo avesso, pra mostrar que ainda sou sua".

Aí mora a chave: o investimento da paixão é tamanho que sua perda precisa ser negada a qualquer custo. Eis porque o "amor" precisa ser afirmado mesmo com seu objeto morto: o cadáver é a posse definitiva.

"Se ela já estava separada dele havia tempos, por que ele foi matá-la quando ela arranjou um namorado novo?" São truques da paixão: imaginar a mulher com outro homem é capaz de reacendê-la, pois dá um enorme tesão (vide "swings", "ménages").

Há duas espécies de ciúme: o sexual (dos homens, que sempre correram o risco de criar o filho de outro) e o de prestígio (das mulheres, que detectam desinvestimento nelas, mesmo que seja em favor do futebol, do computador ou dos amigos do marido). Isso fala só do mais frequente. O de praxe é haver sempre uma mistura dos dois.

Mas como o momento perigoso é o do crime passional, precisamos entender que a paixão (do latim "passio", cuja única tradução é "sofrimento") é um programa de loucura transitória, um investimento de toda nossa vida, não numa pessoa, mas na idealização de alguém. Por isso, ela pode prosseguir depois da perda, mesmo depois da morte.

Quem ama, não mata. Quem está apaixonado, sim.