segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Fobia
Um escritor precisa ler bastante. Diversos tipos de texto, quanto mais
diversificado melhor. Textos pequeno, textos grandes. E, claro, o que gosta
também. Lemos muito por obrigação, mas a leitura sem interesse algum,
simplesmente pelo prazer de ler é a melhor que se pode fazer. Ontem me deparei
com este texto, e quero agora apresentá-lo a vocês. Fala justamente deste desejo
de ler que não nos deixa em paz, e, se nada temos para satisfazer nosso desejo,
nem sei. Mas Luís Fernando Veríssimo sabe como ninguém traduzir a aflição de se
estar num hotel sem um livro para saciar a fome e sede de leitura. Vamos lá
conferir? "Fobias" (texto de Luís Fernando Veríssimo) Não sei como se chamaria o
medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares
fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura) e as
menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até
a treiskaidekafobia (medo do número 13), mas o pânico de estar, por exemplo, num
quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das
minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência
patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de
cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras
tinham “Frio” e “Quente” escritos por extenso, para saciar minha sede de letras.
Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri uma lista telefônica, tentando me
convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto
para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma
etiqueta, qualquer coisa. Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e
deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo
pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para
acompanhar uma insônia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, sexo em
todas as suas formas, ação, paixão, violência, – e uma mensagem positiva.
Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto narrativo, “O cântico dos cânticos” pela poesia
e “Isaías” e “João” pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois
do Apocalipse. Mas e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a
telefonista de madrugada e pedi uma Amiga. – Desculpe, cavalheiro, mas o hotel
não fornece companhia feminina… – Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga,
Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa. – Infelizmente, não tenho nenhuma
revista. – Não é possível! O que você faz durante a noite? – Tricô. Uma
esperança! – Com manual? – Não. Danação. – Você não tem nada para ler? Na bolsa,
sei lá. – Bem… Tem uma carta da mamãe. – Manda!" (VERISSIMO
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