SEU LUIZ, O PROFETA Joca Souza Leão
Os meninos da minha geração não tinham a menor dúvida, como dois mais dois são quatro: o Brasil era o país do futuro. E o futuro, a gente adulto.
Pra começo de conversa, não ia mais haver pobreza extrema, miséria. Perto da minha casa tinha uma favela, a Ilha do Xié (já falei dela em mais de uma crônica). O Xié ficava num mangue. Espinheiro de um lado (do que hoje é o Canal do Derby), Xié do outro. Até a altura de Santo Amaro.
Xié é um siri bem miudinho. Segundo o Houaiss, também conhecido por chama-maré. “De provável origem onomatopaica”. De fato, eles surgiam aos milhões na maré seca, numa chiadeira danada, chamando a maré alta, diziam.
Aterraram o Xié. Hoje é a Agamenon. Naquele tempo, achavam que mangue não servia pra nada, era só lama. Não se sabia – ou se sabia não dizia – da sua importância para a biosfera dos oceanos, responsável, entre outras coisas, pelo clima no planeta.
Acabaram com o Xié. Só não acabaram com a pobreza. Os netos e bisnetos dos favelados do Xié estão, hoje, em outras favelas. Muitas outras. São mais de 700 só na Região Metropolitana do Recife. Pois é, país do futuro. Só não disseram pra quem. Nem quando.
“A tecnologia vem aí e não vai desempregar ninguém”. Ao contrário. As máquinas é que vão trabalhar mais. As pessoas, menos. E vão ganhar mais. Tinha até neguinho preocupado com os índices de suicídio na Suécia, onde os caras só trabalhavam 40 horas por semana (isso nos anos 50). Quando chegassem ao ano 2000, só iriam trabalhar 20 horas. E, aí, “como o ócio é pai de todos os vícios e a vagabundagem oficina do demônio, eles vão se danar a beber, botar e levar galha adoidado, até que, entediados, darão fim às próprias vidas.” Ouvi essa profecia de Seu Luiz, um filósofo bêbado que vagava pela Nicarágua, minha rua na infância.
Mas, tirando o suicídio dos suecos e a guerra nuclear, em que americanos e soviéticos ameaçavam jogar bombas atômicas na cabeça uns dos outros e na da gente por tabela, não havia a menor dúvida de que o Brasil era o país do futuro. Ano 2000. “Todos os brasileiros estarão alfabetizados e empregados, ganhando salários decentes, morando bem, trabalhando menos e vivendo mais.”
Por curiosidade, fui dar uma espiada no Google pra conferir a profecia de Seu Luiz. Em relação a chifre e bebida, não achei nada, mas é fato que tem mais gente estourando os miolos na Suécia hoje do que tinha nos anos 50. Não só lá. Dinamarca, Suíça e Canadá também. Utah é o estado que tem mais suicídio nos Estados Unidos. Sabe por quê, meu? Segundo eles próprios, felicidade. Dá pra tu? Quando mais alto o IF (índice de felicidade), mais gente estoura os miolos.
Dizem que a causa é a competição entre as pessoas. Sei não. Pode até ser. De uma parte, talvez, mas não a maioria. Acho que muita gente por lá se suicida com o diagnóstico na mão, como num filme que vi outro dia. Câncer? Alzheimer? “Vamos abreviar esse negócio.” Muitos outros, melancolia, solidão, depressão. O que, em minha opinião, não tem nada a ver com ócio, aposentadoria, tempo para fazer as coisas boas da vida, entre as quais não se inclui o trabalho (eu, pelo menos, não incluo).
Sobretudo no primeiro mundo, as pessoas vivem muito mais hoje. Vivem? Ou trabalham? Grana de aposentado, mesmo lá, não dá pra viver. O cara tem que continuar trabalhando. E, se tá faltando emprego pra jovem, pra velho, então, é que não tem mesmo. Haja bico! E miolo estourado.
Bem, eles que são brancos que se entendam. Quando a gente chegar lá, pensa nisso.
Por hora, os netos e bisnetos da Ilha do Xié estão preocupados apenas com uma coisa: sobreviver
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